Por que o teatro deveria contornar as lives para não ficar refém do pós-pandemia – Parte 1

Por que o teatro deveria contornar as lives para não ficar refém do pós-pandemia – Parte 1

Não haverá um ambiente "normal" daqui pra frente porque o modelo tradicional de teatro não existe mais

Leandro Nunes

15 de junho de 2020 | 12h52

O título é bem direto para que não se perca tempo. Desde que os espaços teatrais e centros culturais foram fechados, muita água rolou e na próxima semana vamos completar três meses de quarentena. Metade de um semestre!

As principais instituições que financiavam espetáculos de teatro, dança, óperas e shows musicais paralisaram suas programações e todo mundo perdeu: os teatros, os artistas e o público.

A oferta cultural ainda não teve seu impacto totalmente considerado, não enquanto durar esta pandemia, mas o comportamento de consumo e audiência por parte do público na internet pode indicar como essa relação pode ser estabelecida, e mantida.

Teatro Vivo: FOTO: Teatro VIVO

As plataformas de streaming voaram lá atrás. O consumo de narrativas seriadas aumentou nas primeiras semanas de confinamento, ameaçando ao ponto de ameaçar a estabilidade da internet. Alguns países precisaram reduzir a qualidade da transmissão para não sobrecarregar a rede.  No Brasil, Netflix e Globoplay utilizaram agiram para amenizar a pressão sobre a infraestrutura.

Outro exemplo são as lives de maior audiência. Saíram na frente os astros da música brasileira, nacionalmente conhecidos, que correram para as lives saudar um público ansioso por manter contato com seus ídolos.

Nesse caminho, as lives sertanejas, entre as mais populares, começaram com picos de 5 milhões de pessoas no ínício da quarentena. No entanto, nas últimas semanas, shows online reuniu pouco mais de 1 milhão na frente do YouTube. Acendeu o sinal de alerta: o excesso de lives semanais e a dispersão do público.

Mas e os artistas menores?

Um pouco mais tardio, artistas de alcance local seguiram o mesmo caminho no mundo digital. Coletivos teatrais, comediantes solos, e companhias com mais de 20, 30 anos de carreira. O material surgiu de maneira repentina nas redes.

O público já testemunhou a exibição de espetáculos antigos, textos ainda em processo de criação, poesia, entrevistas. Em suma, uma mistura do já pronto com inacabado. É como se o teatro desabasse em um terreno desconhecido, outro planeta.

A ironia é que os artistas do palco – que se orgulham da natureza analógica do teatro, a despeito do cinema e das séries – agora não têm mais o corpo físico, a respiração, o suor e o olho no olho como capital mais precioso e exclusivo. Na tela do computador e do celular, essa presença não está entre as prioridades, justamente porque ela só existe digitalmente, como o som, as imagens, as cores.

Verdades antigas, continuam sendo verdades. Para o teatro, a gravação de espetáculos sempre serviu para registro para acesso do grupo e para divulgação para festivais e produtoras. Na internet, ela surge estranha, quase extraterrestre, e o público percebe.

Nesse período também começaram a aparecer ações experimentais, um pouco na contramão. Grupos começaram a habitar plataformas de videoconferência, mesmo que a lógica seja a mesma: o público adquire ingresso para acessar uma sala (digital) e assistir à uma apresentação, no conforto do seu lar, acompanhado de uma plateia remota. No fim, todos aplaudem e podem trocar umas palavras com o grupo.

Resumindo, a dinâmica de artista visto por uma plateia continuou. É a representação da frontalidade que vivíamos antes da pandemia. No palco, no show. Estamos há três meses tentando recriar uma experiência que vai demorar para ser retomada dentro de um ambiente digital. Nada diferente dos cantores e cantoras mais populares do Brasil, não?

Sendo assim, precisamos assumir que existe um problema de transmissão, um choque de formatos. A experiência do palco nunca será inteira na internet, é verdade, não importa a popularidade ou a “qualidade” de um artista.

Repetir ou tentar recriar essa relação pode durar um momento, em tempos emergenciais. Mas levando em conta a perspectiva de fim da pandemia no País, o confinamento não será um intervalo entre o trabalho feito antes e depois da pandemia.

Não haverá um ambiente “normal” daqui para a frente porque esse modelo de teatro não existe mais. Perceba, é diferente de dizer que o teatro acabou. Pela Europa, surgem esquemas visuais em teatros tradicionais, com poltronas alternadas para evitar aglomerações. Na última semana, em São Paulo, estreou um Cine Drive-in. Veja que nada disso é semelhante ao que a cena cultural brasileira vivia antes da pandemia.

Com o tempo, tentar mimetizar a frontalidade de um show ou de uma peça no ambiente digital pode confirmar desinteresse ou mesmo rejeição por parte do público. O mesmo caminho traçado por artistas super famosos que pensavam ter plateia tão fieis.

Antes que o público os esqueça, ou antes que não haja mais público, é preciso discutir (isso, no próximo texto) como atores, atrizes, diretores, diretoras, dramaturgos, dramaturgas e toda a equipe podem habitar o mundo digital.

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