‘Ossada’ articula um pacto de imaginação no palco

‘Ossada’ articula um pacto de imaginação no palco

Leandro Nunes

28 Janeiro 2019 | 18h00

Enquanto os autores e autoras de teatro deste tempo tentam fazer da dramaturgia uma resposta ao mundo, as formas de poesia parecem oferecer algo que foge dessas certezas, como uma pergunta mais vaga, sem talento para fazer justiça social no palco.

Ao lado, o esforço de diretores e diretoras de atores, conhecidos por incutir a virtude da interpretação em seus trabalhos estão ficando cada vez mais raros. E a chance de ser enxergado como histórico passa a tomar conta.

Com o tempo, os veteranos vão deixando a cena enquanto as próximas décadas apontam para mil lugares e lugar algum.

É da ordem do palco de hoje ser o rescaldo de toda ação criativa das telas, do cinema, da literatura, da música? É do destino das artes do palco da atualidade reciclar a fúria de artistas para domesticá-la no escuro da caixa cênica?

Tudo isso para não dizer o que deve povoar o palco paulistano, claro, mas para apontar que existe, sim, uma falta. E falta imaginação.

A palavra parece soar infantil demais ou profissional de menos. Coisa que em criança é sempre lindo, mas no adulto figura ingenuidade.

Bem, o espetáculo Ossada, segue em cartaz no Sesc Pompeia, fruto da parceria entre a atriz Ester Laccava, e as iluminadoras Aline Santini e Mirella Brandi, com textos de Maureen Lipman, Wislawa Szymborska e Laurie Anderson.

FOTO: JOÃO CALDAS

Menos que uma resposta ao desabafo inicial, a montagem em questão sugere uma formulação que almejo ver há tempos no teatro paulista.

É correto dizer que um peça pode começar com alguém na direção, um texto mais um intérprete. O resultado é uma espetáculo que privilegia as teorias do diretor aplicadas no corpo do intérprete com a comunicação atribuída ao texto.

O que vier para acompanhar – figurino, luz, cenografia – é acessório e altamente dispensável. Em caso de falta, pode ser justificado como “linguagem”. Não é o que acontece aqui.

Antes do Ossada, Mirella já experimentava, ao lado de Muepetmo, trabalhos mais radicais na cena. Muitas vezes, sem a presença de intérprete, conjugando a potência imaterial natural de som e luz. Já Aline estreia na codireção, mas suas assinaturas nsão deflagradas nas diversas parcerias com Eric Lenate, por exemplo.

Em Ossada, os textos surgem como substrato, material precioso à Ester e comburente à imaginação. Não é difícil traçar um caminho paralelo e divergente para a concepção da montagem. Quando há direção, texto e intérprete como matérias-primas, a ordem já está dada.

Nessa peça, o grande ponto de partida está na imensidão da escuridão, que aparenta resguardar, com destreza, todo o potencial do espetáculo.

São em cenas como o voo das cotovias que Ossada reluz, ao revelar um pouco menos de seu mistério, ou seria um pouco mais?

Em momentos como este, com os diversos pontinhos sobrevoando a sala, que a peça vai abraçando algo mais que teatro, próximo da instalação cênica, à performance, ao concerto.

E importante é que o tempo torna-se motivo da imaginação. Não é pirotecnia, ou demonstração de conhecimento do suporte. É aplicação de sensibilidade, ao que oferece à plateia oportunidades de deriva para fruir da invenção proposta pela luz, pela música e pela atuação de Ester. Tudo ao seu tempo.

A complexidade das personagens se instaura na atriz, capaz de transcrever a selvageria particular de cada uma delas.

Mesmo que a temática de algumas histórias, que falam de família ou infância possam sugerir um vocação mórbida e psicológica, e às vezes, repetitiva demais nas artes, Ester entende o que corpo e voz precisam povoar a cena e que o texto deve estar à serviço do todo.

Para isso, basta esticar as fagulhas de uma pederneira em frente ao um grande ventilador. A cena é única, recompensa o silêncio de quem prefere expressar imagens. Ou quando a criança é abusada pelo pai, um drama que rasga o espaço cênico com luz e rosto.

O que mais destoa do conjunto, a mulher dos canapés de berinjela, surge como máscara agradável ao riso e igualmente horripilante para estes tempos de flexibilização de leis.

Ossada é dos projetos que parecem não entusiasmar programadores e curadores, ansiosos por mais um clássico repetitivo ou uma “nova dramaturgia” militante demais pra desprezar a necessidade de poesia.

A peça entusiasma pela chance de reunir o mistério diante dos olhos, de trazer da escuridão a diversidade do degradê, e, principalmente, de permitir à plateia um pacto de imaginação.

Cenógrafos, iluminadores e sonoplastas, o teatro paulistano precisa de vocês. E é pra jogar na linha de frente.