Os acidentes fatais de ‘Playground’

Os acidentes fatais de ‘Playground’

Leandro Nunes

01 Março 2017 | 19h53

A cena de todo espetáculo se configura como uma ferida aberta disponível ao público. Aberta por motivos óbvios e ferida por se tratar do embate artístico e fresco previsto e necessário na composição de uma obra. Se não há sangue envolvido, tampouco há vida pulsando. Arte frígida e inofensiva.

Sangue é uma coisa que não falta na dupla de jovens interpretados por Mateus Monteiro e Lara Hassum. A dinâmica do texto de Rajiv Joseph instaurada oferece um complexo jogo matemático construído para justificar o período narrado na história que compreende dos 8 aos 38 anos.

ARQUIVO 02/02/2017 CADERNO2 / CADERNO 2 / C2 / USO EDITORIAL RESTRITO / Espetáculo 'Playground', do Rajiv Joseph, com direção de Marco Antônio Pâmio, com Mateus Monteiro e Lara Hassum Crédito: Leekyung Kim / DIVULGAÇÃO

Leekyung Kim / DIVULGAÇÃO

Mas para entender numericamente é muito mais interessante desenhar num papel as regressões e avanços e recuos feitos em cena, embora possa ser visto aqui. Nem mesmo a encenação de Marco Antônio Pâmio tenta explicar. Talvez nem sirva mesmo como conceito primordial para compreender a peça. E se for esse o caminho, sua razão de existir dispensa razão.

Sendo assim, partindo de premissas acessórias, a montagem desvela uma relação também feita de feridas abertas, com personagens em diferentes estados de autodestruição, que se machucam de modo consciente ou não. As razões também não importam, embora a cada encontro, exista certa tensão sexual entre as personagens, ou simples identificação e ciúmes recíproco de amigos.

Tudo isso são pistas que a mente tenta buscar diante da encenação. O espetáculo contém 80 minutos de duração e cada período em que os personagens se encontram exige uma transformação na caracterização de ambos. Nada disso seria problema se fossem duas ou três trocas, ou que, de alguma maneira as trocas estivessem incorporadas à encenação.

Mas nos 80 minutos e com oito trocas, fica difícil não pensar que a peça conseguiu a façanha de instaurar intervalos comerciais dentro de um espetáculo. Após a terceira mudança de figurino e depois de compreender o sistema estabelecido, é quase desnecessário olhar para o palco pois a presença dos atores fica suspensa por esses segundos multiplicados.

Nesse desafio, uma coreografia executada apenas com o pescoço pretende menos ressaltar uma perspectiva de corpos interessantes – demonstrando a versatilidade que existe no trabalho de ator – e mais de acobertar a repetição de uma armadilha iniciada com a aquisição do ingresso.

Para além dessa precisão na automação de movimentos apresentados para um público, o aspecto colérico e impulsivo das personagens se confirma quando demonstram suas feridas e machucados. Uma simples referência ao vômito pode despertar a plateia para provocar caretas de nojinho nela.

E a dupla, personagens apresentadas como figuras complexas – que carregam subjetividades construídas antes mesmo de se conhecerem – são oferecidas à atuação com a mesma veracidade de cortes e hematomas artificiais.