Os 12 espetáculos que se destacaram no ano de 2018

Os 12 espetáculos que se destacaram no ano de 2018

Leandro Nunes

25 de dezembro de 2018 | 17h45

Mais um ano aponta para o fim e fica cada vez mais complexo entender caminhos que o palco vai tomar.

O ano de 2018 rendeu para a capital paulista uma temporada razoável, é preciso dizer. Em grande parte, os trabalhos e artistas que despontaram parecem ter sido aqueles que arriscaram olhar para fora do palco, para fora de si. Eles entenderam que o potencial do teatro não é o bastante para uma obra existir apenas nele.

Para os mais clássicos e tradicionais é difícil declarar isso. Mas há muito tempo, a música brasileira tem conversado consigo, com o outro, com o mundo. Há muito o cinema nacional também se esforça. As artes plásticas, as passarelas, os games, as séries.

Empatia também é reconhecer a importância da urgência do outro. É a relevância criativa de uma precariedade que pode ser reinventada. Digo precária porque o artista não consegue explicar. E explicar tem sido o esforço e o pior defeito dos palcos atuais.

Há cada ano, sobra menos disposição para perdoar a catarse pessoal do artista oferecida como purgação necessária a todo público. A divergência de ideias e pensamentos em um Brasil GIGANTE não sofrerá o milagre de ser abrandada nas fileiras de cadeiras nas salas de teatro da cidade.

O ritual que precede a arte teatral não deveria ser confundido com uma proposta de conformidade de pensamento, mas a reunião de uma energia viva capaz de conjurar dimensões sobre o mundo, a arte, a sociedade e seus problemas, de um jeito que só o teatro é capaz de criar.

Em uma rotina com notícias atualizadas a cada segundo como é a de São Paulo, discutir os problemas do mundo via informação é um sinal de que o teatro entregou seu potencial de narrar ao que mais critica. Até mesmo o próprio sentido de formas documentárias têm enfrentado o desafio da relevância cênica, por faltar diversidade em suas abordagens, e ser mais uma tentativa de validar a constituição de um material, quase sempre por uma capa acadêmica, bastante cifrada ao público e que funciona mais no campo da hipótese.

Por outro lado, formas ousadas e dramaturgias que não têm fim em si mesmas evocaram, nesse ano, a atenção para um mundo em transformação. Muito mais que espetáculos cuja principal intenção foi conservar linguagens e a pureza dos métodos e o fantasmas de suas teorias.

Para 2019, o desejo do blog Café-Teatro é ser testemunha de espetáculos com olhares ousados e abordagens originais. Que tenhamos uma cena frequentada pelo mundo e que isso nos provoque a realizar um teatro mundial. (Nem preciso dizer que já passou da hora de termos, no mínimo, legendas em inglês em todos os nossos palcos.)

Que o próximo ano nos reserve celeiro de muita imaginação e menos explicação. Que seja como escreveu Wislawa Szymborska:

‘O pisar da eternidade com a biqueira da botina dourada.
O escorraçar da moral com a aba do chapéu.
A incorrigível prontidão de recomeçar amanhã.’

Um ótimo 2019 a todos e todas!

Confira os 12 espetáculos que mais se destacaram no ano de 2018:

 

Iracema Via Iracema

O espetáculo da Sinha Zózima e do Agrupamento Andar 7 abriu o ano com história inspirada na vida de uma mulher de origem rural e semianalfabeta que decide largar sua rotina e viver dentro de um ônibus, pelas ruas da cidade. Apresentada em um ônibus, a plateia testemunha uma viagem pelas dores e alegrias da personagem vivida por Luciana Ramin, atriz que consegue transformar o público em um coral cúmplice da encenação.

Foto: Gabriela Biló/Estadão

 

Hollywood

O fim da trilogia Mamet, coloca a carioca Cia Teatro Epigenia como boa notícia em terras paulistas. A dramaturgia sem medo de desmascarar a falsidade e hipocrisia nos meios culturais e de entretenimento desenvolve uma trama rasgada de ódio e que enquadra o pensamento da produção cultural e seus propósitos para uma sociedade contemporânea. Sua clareza provoca a delícia de um teatro voyeur no qual a plateia observa as indecências das personagens como purgação dos próprios pecados até enxergar nelas um espelho impossível de suas próprias más virtudes.

Foto: Gabriela Biló/Estadão

 

Terceiro Sinal

Há muitos anos, Otavio Frias Filho experimentou o ofício de ator no espetáculo Boca de Ouro, com o Teatro Oficina de Zé Celso e relatou a vivência em Terceiro Sinal. O texto ganhou Bete Coelho no papel de Caveirinha (e do próprio autor) encenado no nosso patrimônio cultural projetado por Lina Bo Bardi. É a máxima potência que o teatro poderia oferecer.

Foto: Jennifer Glass

 

A Ira de Narciso

Espetáculo do franco-uruguaio Sergio Blanco é um vórtice que sustenta uma obsessão pela energia masculina que vai do gozo do tédio e seus tropeços criativos ao orgasmo da violência. Nessa autoficcção, o ator Gilberto Gawronski percorre com a plateia, sem pressa, uma maratona de suspense. Seu convite ao terror permanece até o final, como se o pesadelo nunca acabasse. Na descoberta do fim, Gawronski viceja a vitória de um teatro incansável de crueldade.

Foto: Périplo Produções

 

Macbettu

Grupo italiano Teatro Persona, de Alessandro levou a tragédia de Shakespeare para falar no idioma dos moradores do interior da Sardenha. Apenas com atores homens, espetáculo restaura a conspiração de Macbeth na virilidade da traição, relação que lembra as negociações políticas na escuridão dos bastidores ou mesmo à vista de milhões em aplicativos de mensagens instantâneas

Foto: Alessandro

 

Colônia

Gustavo Colombini soluciona qualquer busca da plateia por “novas dramaturgias” e elabora uma elevada dramaturgia com atuação de Renato Livera sobre o conceito de colônia e o caso da morte de 60 mil pessoas em um manicômio na cidade mineira de Barbacena. É a síntese de um teatro com força de imaginação e legível para os sentidos.  

Foto: Patrick Sister

 

Epidemia Prata

Para o público cativo de São Paulo, o trabalho dos teatros de grupo costuma versar sobre temas e formas semelhantes, ao longo de todo o ano. O mesmo não ocorreu com a turma da Cia Mungunzá, que estreou a primeira montagem depois de se instalar o Teatro de Contêiner no centro convulsivo da cracolândia. Sem receio de demonstrar a própria impotência da arte diante de um quadro marcado pela violência policial e marginalidade, o espetáculo inaugurou um pensamento honesto e espirituoso sobre a atuação artística na principal cidade do país.

Foto: Letícia Godoy

 

Curra Temperos para Medeia

Ao identificar uma força proto-feminista no mito de Medeia, espetáculo do Teatro Contadores de Mentira funde a mitologia grega à força e profundidade de um olimpo africano, com direito a um jantar envenenado e um alfabeto corporal que expressa e comunica a riqueza do mito e da teatralidade.

Foto: Contadores de Mentira

 

O Ânus Solar

Na edição do Festival Internacional em São José do Rio Preto, o artista Maikon K apresentou o ambicioso Anus Solar, inspirado no texto de George Bataille. No dia da apresentação, Maikon se feriu, acidentalmente com uma elétrica. O trabalho explora conceitos da relação entre performer e plateia até mesmo os clichês de uma performance, da religião e de situações limite.

Foto: Milena Aurea

 

Ítaca – Nossa Odisseia I

Peça de Chris Jatahy é a emancipação que o teatro do século 21 precisava para continuar existindo. O espetáculo criado no âmbito do Odéon-Theatre, na França, conjuga a habilidade da direção com um jogo monumental fundindo cenografia com a experiência trágica do mito grego.

Foto: Elizabeth Carecchio

 

Lo Único Que Necessita Una Gran Actriz, Es Una Gran Obra Y Las Ganas de Triunfar

Versão do grupo mexicano Vaca 35 para As Criadas, de Jean Genet, espetáculo apresentado no festival Cena Contemporânea, em Brasília, levou para uma lavanderia úmida e suja a dupla de irmãs que recriam um jogo macabro de morte. A simplicidade da montagem ao usar apenas dois pontos de luz no ambiente surpreende junto com as atrizes, detidas em seus corpos de trabalho, os mesmos que jamais vestirão o luxo dos vestidos e colares da patroa.

Foto: Júnior Aragão

 

Revoltar

A peça de Dione Carlos, a partir da obra de Eu fui soldado de Fidel: autobiografia de Fidelina González, de Renata Palottinni, uma história delicada sobre sonhos e guerrilha. Na direção de Torres Machado, a memória fragmentada é agente no comando da poesia. Espetáculo que expressa generosidade aos artistas envolvidos e a plateia. Deveria circular pelos festivais do país nos próximos anos.

Foto: Keiny Andrade