O sorriso sombrio de ‘A Comédia Latino-Americana’

O sorriso sombrio de ‘A Comédia Latino-Americana’

Leandro Nunes

11 de novembro de 2016 | 17h56

Depois que Pokémon Go surgiu entre nós, as esquinas passaram a esconder sombras virtuais de Picachus e Ratatas. Não que antes estivéssemos livres, mas a consciência desse depósito espectral de antimatéria passou a perturbar o que chamamos de mundo.

Todavia, antes das tecnologias, parece que o inconsciente coletivo do mundo estava bem desperto (ou acordou agora?). A leitura da história se concretiza quando apresentada em boas porções amarradas, seja os períodos bélicos, movimentos culturais ou mudanças climáticas.

SAO PAULO CADERNO 2 CENA DA PEÇA A COMÉDIA LATINO-AMERICANA, DE FELIPE HIRSCH. FOTO PATRICIA CIVIDANES

Muro a cair – Patricia Cividanes/Divulgação

A Comédia Latino-Americana, de Felipe Hirsch parece orbitar no tudo e no nada históricos, na servidão real e na sua improvável ausência; na liberdade impalpável e na mania de tentar concretizá-la.

O projeto do diretor começou com a explosiva A Tragédia Latino-Americana que sacudiu em risos o Sesc Consolação e saudou Temers e Alckmins na abertura do espetáculo. Fica claro que as gargalhadas em abundância se desidrataram na segunda montagem.

Em A Comédia… o que é sombrio salta diante do contexto histórico de fundação dos países latino-americanos, como o texto inédito escrito por Reinaldo Moraes, sobre Hans Staden, o mercenário alemão que esteve no Brasil no século 16. Declamado por Caco Ciocler, o horror do canibalismo até se contrapõe a alegria brejeira do português interpretado pelo ator em A Tragédia… Tal qual as ruínas dos blocos de isopor, o sentido do espetáculo passa a apontar para o preço: o mundo não é retornável. O que se carrega ali é dos resíduos mais antigos produzidos naturalmente no planeta, que alcança instabilidade bélica e interlocução ideológica no plano político e econômico, além de ser irrecuperável no meio ambiente e ter, entre outras serventias, proteger o luxo do consumo.

Palavra e ação, portanto, se remetem a um período inflamado da história do continente. Uma estação instável de plena consciência. O palco como instante de controle capturado entre o susto da queda e a percepção do fim.

SAO PAULO CADERNO 2 CENA DA PEÇA A COMÉDIA LATINO-AMERICANA, DE FELIPE HIRSCH. FOTO PATRICIA CIVIDANES

A Arkestra a passar – Patricia Cividanes/Divulgação

Os autos da religião também surgem para impor suas mitologias, como a saga de uma negra que chega a ser disputada no panteão dos santos. Também nos embates anarquistas e no pedido de uma jovem presa para que reguem suas plantas. Intui-se que a única incapacidade do mundo foi não se furtar em atingir um corpo quando uma ideia parecia mais interessante. De todo, o cansaço do mundo ideal não comunga com os santos dos últimos dias. É possível conviver com seus lampejos, mas nunca com o peso deles sobre a Terra.

De qualquer forma, não foi fácil inferir com mais qualidade. Na sessão assistida, o desempenho dos atores parecia estar ao léu. Nas quase três horas de espetáculo, o ritmo das falas foi atingido por lapsos. Uma incomum falta de concentração transpirava nos rostos, como se uma decisão repentina tivesse mudado as regras. Talvez seja isso mesmo, dada a livre experimentação de textos proposta pelo diretor. Em geral, Ciocler e Julia Lemmertz pareciam estar sob controle. Por outro lado, os dois tinham menos cenas em conjunto. Quando o elenco se reunia no palco, o tempo fechava. Algumas frases saíam impossíveis de serem ouvidas, o som dos microfones parecia abafado e havia uma leve pressa e irritação para que tudo acabasse. Fora disso, o interessante se tornava casual demais para ser gasto sentado na poltrona do teatro. Um viva para os Ultralíricos Arkestra, a noite foi de vocês!