O elenco elétrico de ‘Leão Coragem’

O elenco elétrico de ‘Leão Coragem’

Leandro Nunes

15 de fevereiro de 2017 | 11h21

O que motiva o teatro enquanto acontecimento pode parecer saturado demais quando atuais artistas olham para o passado e não tão unânime quando se pensa no presente. Por outro lado, As opções estéticas ilimitadas que marcam o caminho da criação se ampliam pelo suporte técnico e de pensamento na mesma medida em que podem ser anuladas diante das características do mercado.

O jogo da criação contemporânea, portanto, configura-se na capacidade de regular as motivações expressas em um projeto mediado com os recursos obtidos. Nesse sentido, dinheiro é um dos estetizadores de uma obra. Talvez o mais importante para alguns. Talvez apenas um limitador na mão de uma boa equipe.

Também é relevante no mercado o advento de tantas escolas de formação teatral há 5, 10 anos, e só daqui a algumas décadas será possível avaliar o quão precioso foi o legado de formação.

Tudo isso fomenta novas maneiras de se produzir teatro, ainda que boa parte do processo siga regras mais antigas, tocar as bordas é obrigação das atuais gerações de artistas do palco.

Diante disso, tudo é possível no teatro. E nada disso é novidade. O espetáculo Leão Coragem pode talvez figurar o sintoma dessas demandas da atualidade. A montagem trata do medo na condição fabular de um leão.

unnamed

Divulgação

Mergulhado em uma família com suas manias e obsessões, a montagem com texto e direção de Antonio Ranieri, coloca a síndrome do pânico no ritmo de um carrossel – na medida em que não tenta transformar a paisagem – mas de reivindicar outra perspectiva dos seus passageiros.

Nessa sentido, o elenco dita o ritmo da narrativa, ao sustentar a energia contínua de figuras com mentes exaltadas que não dialogam diretamente entre si. À exceção do Leão, os membros da família reproduzem a condenação pautada pelo desconhecimento. O medo congênito do personagem não os atinge e é pela ausência de empatia que eles subsistem.

Ao esvaziar a complexidade emocional das personagens que circundam o Leão, o espaço de humanidade da figura felina encontra voz no desespero de suas declarações. Esse texto surge em formas não tão interessantes e, ironicamente, ao invés de dar protagonismo ao personagem, o desempenho do ator descola o personagem dos demais, e da condição dada, o que cria uma fissura e, portanto, desestabiliza o corpo uno do elenco, criando dois conjuntos na cena. É preciso compreender como fundir o encontro. A teatralidade não se concretiza apenas em uma série de ações e reações ensaiadas.

unnamed (1)

Divulgação

Por essa dinâmica, à “outra metade” coube aprofundar a linguagem grotesca e de cabaré construída em atores que criam e dominam as esquisitices de suas criações. Todavia, pela ausência de grande impulso do intérprete do Leão, como apontada anteriormente, o movimento dos demais atores surge para compensar a ausência central de um grande protagonista, intensificando as cores de suas próprias personagens. A verdade é que não é nada interessante orbitar uma estrela fosca, mas tentar brilhar demais pode cansar a audiência.

Os figurinos criados acompanham a dimensão do projeto e, bem como da cenografia, cabem nas mãos, no campo sensível e do esteticamente viável, o que faz do espetáculo um acontecimento evidente, um carrossel sobre a vida, em suas devidas proporções.

Tudo o que sabemos sobre:

Antonio Ranieri

Tendências: