O dicionário oral de paisagens em ‘Abnegação III’

Leandro Nunes

20 Julho 2016 | 12h16

Por Leandro Nunes

O último que sair, apague as luzes. É na derradeira obra da trilogia Abnegação que o Tablado de Arruar encerra uma investigação sobre o arco histórico do Partido dos Trabalhadores erguido pela Era Lula até o mandato e meio da presidente afastada Dilma Rousseff.

Na terceira parte do projeto, Abnegação III – Restos, abandona o calor das tramas políticas e o fetiche violento pelo poder – apresentados na duas montagens anteriores – para ultrapassar o batente dos lares e intuir no seio da família quais os resquícios desse período. 

A pesquisa sob este eixo temático também deixa claro o desejo de experimentação ao longo das montagens. O texto de Alexandre Dal Farra e a direção de Clayton Mariano se evidenciam no corpo dos atores. A movimentação minuciosa do elenco alerta para a concentração de detalhes nas expressões faciais e vozes.

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Fim Vermelho

Tal qual os bustos de figuras históricas esculpidos em mármore ou bronze – os quais dispensam a representação total do corpo – o objetivo primeiro da peça é utilizar a face, o pescoço e o torso dos atores como adornos de ação. Aos poucos, certa movimentação dos corpos também vai se assimilar como território narrativo. Entretanto, é a voz e a face de Alexandra Tavares, Amanda Lyra, André Capuano, Antonio Salvador, Ligia Oliveira e Vitor Vieira que se encarregam da missão primordial de veicular o efeito das decisões políticas desse período e do legado cultural do Brasil contemporâneo.

Do ponto de vista histórico, os rompimentos nunca são imediatos. Os acontecimentos se parecem com fatos precedidos mais ou menos de maneira turbulenta, e, mais tarde, integrados a um modelo ‘pré, ao vivo e pós’. Na montagem, tudo o que já passou parece retornar como um pesadelo entediante, tão real quanto possível. É na fala das personagens jovens que as questões meramente políticas empalidecem para dar lugar ao espírito flácido dessa geração.

Uma juventude ansiosa e indiferente

Uma juventude ansiosa e indiferente

A indiferença e a ausência de sentido nas coisas é o diagnóstico de jovens esgotados. Esse estafamento estaria ligado ao triunfo da corrupção? Em que medida a imagem de um Estado eticamente deteriorado tem o poder de sequestrar o futuro de uma nação? Se não há perspectivas no horizonte, por que gastar energia com o mundo real?

Tal insegurança imprime a recriação de modos seguros de sobrevivência, nos quais não arriscar é uma regra comum. A decisão emperra o presente de uma sociedade que escolhe hibernar, sem a esperança da próxima estação. No outro extremo, o desespero social desperta uma loucura selvagem. As consequências são drásticas mas não rompem estruturas. Antes, se encaminham como desvios comuns, tratados com o privilégio de um sistema ainda mais comum.