Na escuridão da rede, ‘Levante’ navega em mar de hiperlinks

Na escuridão da rede, ‘Levante’ navega em mar de hiperlinks

Leandro Nunes

27 de abril de 2016 | 11h00

Leandro Nunes

A internet nos deu a chance de forjar uma alcunha que atomiza o indivíduo quando ele adentra rumo à rede mundial. O que se percebe nesse processo é que essa alcunha que identifica o sujeito se espatifa na transição e o resultado é o surgimento de milhares de pedaços, perfis, que carregam o DNA do todo  por um lado lembram quem somos nós, nossas imagens e ideias, mas são incapazes de dar conta do todo, como perfis de aplicativos de sexo ou música.

Desde o início, não coube na internet a política de experienciar o real a partir de dados reais, pelo contrário, como equipamento de vigilância bélica, a internet forçou-se como aparato que dispensava o rosto para a navegação do sujeito. Em contrapartida, o virtual ofereceu a função de ser a lupa que multiplica em mil rostos, a complexidade do nosso ser, tal qual os pixels de uma imagens, o que nos identifica não mais nos identifica, mas microniza nossos gostos, objetivos e desejos em pequenos arquétipos cultivados em dispositivos, como, mais uma vez, os apps destinados ao relacionamento interpessoal, a busca por sexo ou para viabilizar ações criminosas.

Faz parte de Levante, tratar desses dois últimos compartimentos humanos: o crime e o sexo. A dramaturgia de Daniel Graziane convoca um arranjo de tramas políticas e interesses em rede, tal qual a matriz em que está mergulhada. Nela, a motivação anarquista de jovens atravessa as experiências de um pedófilo que corre na curva de oficiais em campo.

LEVANTE 6

Um asiático e sua preferência por crianças

Na dieta dos movimentos, o elenco intenta empreender na voz a construção desses habitantes virtuais, para dar conta de seus interesses, relatos e consequências. Os diálogos que surgem no ritmo de cliques emparelham a forma junto ao conteúdo emitido. Na epístola, o hacker invoca um episódio da Bíblia no qual Jesus se depara com um homem possuído por espírito. Seu nome? “Legião. Porque somos muitos.”

Na direção de Roberto Alvim, o sermão pronunciado passa a caber como base analógica que, geralmente, se cola no arcabouço de grandes crimes. O desejo anunciado sacraliza qualquer tipo de massacre e confere à internet o posto de uma antiepopeia, ou a mesma correspondência que teria um anti-herói.

LEVANTE 8

O rosto de uma legião

Se, no trecho bíblico, Jesus expulsa o amontado de mais de 1.000 espíritos imundos e os envia para uma manada de porcos – que correm e se precipitam no mar – a encenação trata de borrar os desenhos que acabou de criar. É a face fragmentada do anonimato que se espalha como vírus sem deixar rastros, mas que fere fundo a realidade.

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