Música de ‘Guanabara Canibal’ prova que o teatro não precisa mastigar a si mesmo o tempo todo

Música de ‘Guanabara Canibal’ prova que o teatro não precisa mastigar a si mesmo o tempo todo

Leandro Nunes

31 Janeiro 2018 | 15h36

Há um embate interessante em produções teatrais que buscam olhar para eventos históricos como objeto disparador de suas criações: a distância óbvia do passado material e as obrigações subjetivas do que é ser contemporâneo e viver no presente. Passado por passado não justifica a existência de um espetáculo, tampouco o salto num vazio de referências dá pé para conceber conexões e criar relações.

Nada disso tem muito a ver, inicialmente, com a qualidade de uma obra, mas com a visualização de um projeto cênico possível, que observe, dentro de tantas demandas, uma fração dessa totalidade, que não cabe no palco. Para longe de tudo, teatro é fração do real, e por ser partícula, iguaria, é cara ao seu tempo, ao espaço e à audiência. Segure essa ponta aí.

FOTO: Julio Ricardo

Depois da bem sucedida temporada de Caranguejo Overdrive, em São Paulo, a Aquela Cia prosseguiu na sua investigação do Rio histórico com Guanabara Canibal, e antes ainda, em peças anteriores, o que coloca o grupo no mapa de um trabalho cênico voltado ao entendimento da urbanidade, inclinação antiga dos grupos paulistas com suas obsessões pela selva de SP.

Nesse sentido, o novo espetáculo retransmite de modo claro a continuidade de uma intenção formal na dramaturgia de Pedro Kosovski e na direção de Marco André Nunes, o que implica na percepção de uma validade ou contundência do caminho tomado pelo grupo.

Formado por blocos de solos, o espetáculo recupera o conflito que teve como campo de batalha a antiga Guanabara, ocupada por índios e assediada por colonos. O tom documental, povoado de referências materiais e imagéticas pode soar didática, muito embora não esteja claro na linha do tempo dos livros de história. Mesmo assim, a temática, aqui, não é uma questão.

Diferentemente de dramaturgias encomendadas, que quase não sofrem alterações, trabalhos de companhias de pesquisa tendem a borrar e escrever linhas continuamente, o que prevê uma busca por um outro tipo de estado e encontro, como é o caso da Aquela Cia, que constrói o texto em conjunto com cenas, um diálogo que pede frutos no palco. No entanto, há uma estranha divergência entre dramaturgia e direção. O tom muitas vezes sardônico dos solilóquios de Kosovski não encontra ressonância na encenação de Nunes. Por vezes, soam como alheios, muito embora estivessem discutindo o mesmo tema. Não é preciso ir longe, basta fechar os olhos enquanto se ouve os atores para perceber um desarranjo.

FOTO: Julio Ricardo

De outra maneira, a cena sugere uma performatividade que não parece consciente, já que instrumentalizada resultaria em um evento teatral máximo. Em momentos, nos quais a performatividade toca a superfície, a dramaturgia ou a encenação parecem limar seu sucesso, lembrando “que é teatro”.

Diante de uma boa ironia despercebida na cena ranzinza, a busca por evocar ícones dessa narrativa subsiste. O homem branco achincalhado não falha em dizer: “Até quando vocês vão deixar que eu continue”, ou algo parecido. Seu protesto contra si mesmo é singular, pois não se trata de arrependimento, mas de um corpo com acúmulo de guerra, violência e machismo. Sua construção na peça não sucumbe ao momento em que questões identitárias têm colocado em cheque diversas produções, incluindo o protagonismo de figuras hegemônicas nas narrativas. Pelo contrário, sofistica a discussão. Esse perfil segue nas outras vozes da peça, cada qual revelando a marca permanente com base na cor da pele às vistas da história hegemônica.

Contudo, a dramaturgia de Guanabara Canibal não é caminho fácil para o elenco. É preciso encontrar embocadura possível ou desistir de alguns maneirismos quando o texto vira voz. Por vezes, sobra à cena um impasse que impossibilita a circulação das ideias, desta vez na raiz do texto, ou em cenas de Carolina Virguez — tão longe da bem aventurada prostituta de Caranguejo — agora em uma estranha luta no barro no final, que quase flerta com o vaudeville, numa batalha entres corpos fisicamente desiguais, com ações e reações incompatíveis entre os atores, um descompasso. Em geral, a interpretação de Matheus Macena, ainda com cacoetes de caranguejo, se constrói num híbrido que conjuga trabalho corporal, vigor físico, e aplicação da voz, em altas e continuas frequências. Em conjunto com Reinaldo Junior, a dupla tendem a dinamizar o bloqueio proporcionado pelo texto. É preciso dizer que no dia em que o espetáculo foi assistido pelo Café-Teatro, parte do elenco não estava, e o ator João Lucas Romero havia sido substituído. A presença do pequeno Zaion Salomão encanta enquanto possibilidade, diante de uma narrativa que trata de violência e exploração, sua performance é âncora na cena.

Em Guanabara Canibal, tudo muda quando a música ao vivo ganha protagonismo. Fica nítido como se a tela de projeção entre palco e plateia tivesse sumido e unido peça e público. Passa a tratar-se de outra encenação, de acontecimento operístico, que retoma a chave da performatividade com elementos em consonância para ver e ouvir. De fato, a direção musical de Felipe Storino reúne a potência desejada na direção com a subjetividade procurada pela dramaturgia, explodindo num rock raro no teatro, numa realização que não deixa saudades do texto ou do trabalho da encenação. O desejo é que artistas como Storino passem, cada vez mais, a empreender a direção de seus próprios projetos cênicos, com olhares deslocados em busca de cenas potentes.

GUANABARA CANIBAL. Sesc 24 de Maio. R. 24 de Maio, 109. Tel.: 3350-6300. 6ª, 21h, sáb., dom., 18h. R$ 30 / R$ 15. Até 18/2.

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