Morte e paixão lempejam nas luzes de ‘Treasured in The Dark’

Morte e paixão lempejam nas luzes de ‘Treasured in The Dark’

Leandro Nunes

02 de março de 2016 | 10h00

Um embate do transcendente.

De um lado, o “corpo sem órgãos” de Tatsumi Hijikata (1928-1986), do outro a sensualidade encarnada de Lennie Dale (1934-1994). O que esculpe o corpo do bailarino japonês  um dos fundadores da dança-teatro Butô  tem natureza estranha àquela que dilacera os movimentos do criador do Dzi Coquettes.

Por tais características, é em Treasured in The Dark que Thiago Granato reage ao desejo de corresponder à ausência dessas energias tão entranhadas. Para dar conta de manejar essas direções, o performer se coloca à posição de dispositivo, capaz de captar, mapear e reproduz sinais.

Hijikata sendo arvorado

Hijikata sendo arvorado

O recorte de cenas tem construção incerto, bem como o corpo e seus movimentos. O ambiente palpita junto aos espasmos do corpo e promove a inserção e retirada do corpo-dispositivo das vistas das plateia, ora nublando o olhar com escuridão, ora adentrando as bordas da luz. Interessante perceber que não há sombras, talvez pela obviedade do nome do espetáculo, ou então elas não aderem significativamente ao conjunto.

O ambiente, mais uma vez, é primordial para a instauração da ilusão com objetos. Fundidos na negrura, abacaxis, bolas e galhos flutuam presos às mãos do performer. A suspensão dos movimentos e a maneira com a qual os objetos se apresentam cria imediata conexão, realoca e reconfirma o corpo ao posto – nobre – de moldura. A precisão do acabamento dos objetos justificaria uma exposição ainda maior. Há interesse superior, enlevo em observá-lo, e, enquanto imagem potente, prevalece ao ritmo conferido ao arvorar da bandeira.

 

 

 

 

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