MITsp: A música de ‘MDLSX’ é um portal aberto para a realidade de um sonho político

MITsp: A música de ‘MDLSX’ é um portal aberto para a realidade de um sonho político

Leandro Nunes

29 de março de 2019 | 16h38

É preciso calma, e tempo, para decorar a própria dor.

Se a sorte não é capaz de transformar um caráter, ou ressaltar a bondade em um homem mau, como dizem The Smiths, “So please please please Let me, let me, let me Let me get what I want, this time.”

Insistir, portanto, torna-se motivo de sobrevivência. Resistir – um verbo que até inspira a manutenção de um ideal, com o tempo, pode sugerir recuo, ou endurecimento ao presente. Por não concentrar em si energia ofensiva, em um momento vai precisar encontrar seu próprio substituto.

FOTO: Renato Mangolin

A atriz Silvia Calderoni encerrou a programação da 6ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, quando poderia estar entre os grandes destaques do evento, ou de outra forma, mais celebrada.

A performance MDLSX, da Companhia Motus, desarticula os maneirismos de um teatro contemporâneo que ainda não se reconheceu neste tempo, mesmo que procure forjar suas ferramentas contemporâneas. Sua busca por superar o passado, na linguagem, não parece ter impulso para o futuro que tanto deseja.

É nesse intervalo, o presente, que a Performance parece encontrar espaço frutífero de criação e invenção. Por isso, não é estranho destacar que o melhor da 6ª MITsp – uma mostra de teatro contemporâneo – não foi um espetáculo teatral.

Desde o início, Silvia se coloca como um catalisador, capaz de alterar fluxos e velocidades, sem ser consumido.

A música em MDLSX é um dos agentes deste processo, com playlist disponível no Spotify. Vamos falar sobre algumas delas. Para completar, as memórias de infância de Silvia compõem parte do material que ela vai recorrer durante a montagem.

Foto: Renato Mangolin

Seu primeiro pedido à plateia vem com a música dos Yeah Yeah Yeahs:

‘Don’t despair,

You’re there from beginning to middle to end’

De alguma forma a descoberta de sua condição física como intersexual, (ou como o antigo hermafrodita) inspira que as fronteiras de seu corpo não se definem pela aparente incompletude, diante da norma masculino-feminino, construída culturalmente.

O desconforto da revelação está lá, e na montagem é menos social do que psicológico. Os conflitos consigo é protagonista. Aos poucos, as vozes exteriores – da percepção dos outros, da escola, da família, da polícia – começam a orbitar o universo lisérgico de Silvia. Seu comportamento é observado de fora. Sua infância e adolescência é testada e ela submerge em sua identidade, em Imitation of Life, de R.E.M:

‘Like a friday fashion show teenager

Freezing in the corner

Trying to look like you don’t try’

A performance, entretanto, intenta em ambição maior que organizar um diário pessoal da artista. Silvia avança nos amplia o olhar sobre o aspecto político, ao oferecer um ponto de vista de destituição. A solução de seu corpo, oferecida pela medicina, tem mais sacrifícios que ganhos. O revés serve de enquadramento social, a fim de tornar sua participação no mundo mais normalizada e, portanto, invisível. Não é o que ela deseja.

Ao pensar no que motiva grande parte de produção cênica LGBT no Brasil, não é fácil se desvincular de uma visão política que se orienta por meio de uma revolução promovida pela burocracia, ou seja, pela construção de políticas públicas de defesa de direitos e combate à violência. Por isso, não é raro que espetáculos lembrem, exaustivamente, manchetes sobre violência contra a população LGBT, uma das marcas da omissão do Estado.

Em MDLSX, sua urgência não dá conta de tramitar pela burocracia. Monstro é a palavra que insurge como uma antimatéria à realidade frágil. Silvia apreende que a desigualdade que amplia a exploração não será solucionada, apenas mitigada.

Há que se interromper o agente da desigualdade, o que não significa afirmar, necessariamente, uma lutar pela igualdade. Quem somos nós? Que contrato foi feito para nos autoriza a dizer ‘nós’? É urgente anarquizar o Poder.

E ela sugere um caminho, na canção de The Knife, One Hit:

‘I could do the laundry

The women’s work

For a reasonable salary I would wash the world’

De forma mais ingênua, ela já cantava, no início do espetáculo, ainda jovem, sua indignação pelo conflito como forma de manutenção de poder, na fábular C’era Un Ragazzo Che Come Me, gravada no Brasil por Os Incríveis, em 1967, e nos anos 1990, pelos Engenheiros do Havaí, sobre o garoto que deixa o violão para tocar outras notas, aquelas que matarão pessoas na Guerra do Vietnã:

‘Ma ricevette una lettera

La sua chitarra mi regalò

Fu richiamato in america

Stop! Coi Rolling Stones!

Stop! Coi Beatles, stop!

M’han detto va nel Viet-nam

E spara ai Viet-cong

Tatatatatatatatata’

Assim, além de desconsiderar o corpo como continuidade temporal, sem início, meio e fim, Silvia-sereia nos oferece uma cosmovisão rara de se empreender na cena. Sem limites para se vislumbrar valores, crenças, desejos e sentimentos. Ao fim, The Smiths volta para confirmar a vocação de um sonho político. Sob a luz negra, tudo será possível.