MITsp: A máscara sem fronteiras de ‘Black Off’

MITsp: A máscara sem fronteiras de ‘Black Off’

Leandro Nunes

23 Março 2017 | 18h05

Não foi tão simples navegar pela seriedade de boa parte dos espetáculos que integravam a programação da 4ª Mostra Internacional de Teatro (MITsp). Em geral, apesar dos discursos e o que se pretende dizer tocar o contemporâneo com agressividade, as linguagens e formas nem sempre carregavam a mesma potência que uma obra necessita para ser lembrada no ano que vem.

O que se passa em Black Off vai na contramão, ao criar uma fissura importante, e se tornar uma opção formal do que o público brasileiro conhece como “teatro negro” ou montagens que abordam questões raciais.

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Foto: Janosch Abel

O espetáculo reclamado pela performer de Ntando Cele que invoca a mulher branca chama Bianca White se utiliza de recursos de stand up comedy ao inverter a lógica do preconceito e racismo naturalizando-os. O choque causado pelo desconforto da máscara que reproduz estereótipos é a chave para compreensão de questões políticas, sociais e de cidadania.

Apesar do alter ego da sul-africana ser magnético no palco é interessante perceber como cada pessoa, na plateia, articula suas frases sórdidas, abrindo a cena para a construção de uma compreensão comum, como na cena em que interage com pessoas negras na plateia tomando-as por autistas. São instantes em que a atriz funda uma estranha comunhão, na qual reconhecer o outro se torna componente primeiro para a perceber o coletivo.

Nesse sentido, e de modo intrigante, por relativizar as experiências gerais – a performer ressalta que só pode falar de si -, Black Off se torna uma ágora nada tradicional. As vozes evocadas por Bianca White e Ntando são vozes históricas, achatadas de ignorância, temperadas das sutilezas violentas do dia a dia de diversos países, incluindo o Brasil e desconhecida pela população de brancos.

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Foto: Janosch Abel

Curiosamente, seria estúpido dizer que sua caracterização se trata de white face, pois isso sugeriria a incompreensão ou confusão de grandezas como estética e dialética. Com a mesma infelicidade que o black face desumaniza, uma atriz negra se pintar de branco entregaria seu próprio discurso à impessoalização, tanto de si como do outro com quem dialoga, pela clara incapacidade de um sujeito falar pelo todo. Estas são vias fáceis quando se quer desvirtuar o interlocutor de sua posição em um estranho resumido em pele, ou uma tentativa de levantar espantalhos racistas e atirar fogo neles. O que não seria problema algum, embora pareça não se tratar do trabalho visto em Black Off.

Nesse segmento, a contemporaneidade necessita ser encarada mais como local, na qual ideologia, política e os movimentos da economia e da história exercem pesos diferentes em diferentes sociedades, diante dos signos únicos e reconhecíveis de violência e exploração.

Por ser, paradoxalmente, tão universal, Ntando se configura como uma artista humanista, na qual a violência e desigualdade históricas direcionada à sua pele não são capazes de borrar a singularidade de seus poros e cicatrizes.

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