‘Maria de Quem?’, da Cia Pagu, chama a força de mulheres do cangaço sem se aliar à vulnerabilidade

‘Maria de Quem?’, da Cia Pagu, chama a força de mulheres do cangaço sem se aliar à vulnerabilidade

Leandro Nunes

13 de outubro de 2019 | 13h16

Fazer sobressair da violência energia para a luta não é coisa fácil. Pede-se ainda mais. Beleza e um sorriso no rosto.

Não parece coisa que caiba na vida de cangaceiras, de mulheres guerreiras. Em ‘Maria de Quem?’, da Cia Pagu, é a primeira, e talvez a única pergunta que seja necessária ser feita.

FOTO: Jamil Kubruk

A montagem escolhe das dores, do abuso e do abandono a vitalidade para que se construa parte da musicalidade e dos versos trazidos pelo elenco.

Parte dessa escolha musical confere ritmo que por vezes parece não rimar tanto com as interpretações.

No grupo de mulheres vigiadas por seus donos, a verdadeira indignação não parece corresponder à submissão imposta. Talvez pelo excesso da narração, o elenco escolhe protagonizar os discursos e menos ser afetado pelo quadro da realidade.

A gravidade adotada no tom elege as cangaceiras como mulheres resistentes e de fibra. A música que permeia o coro encontra desafios para subsidiar as subjetividades que amplificariam a vulnerabilidade dessas mulheres.

É claro que a indignação nos oferece uma oportinidade de não experimentar novamente o horror da dominação. No entanto, conquistar o palco demanda que ser vulnerável no corpo e na voz pode, sim, integrar a sombra de mulheres que antes apenas estariam lutando.

A ansiedade em garantir que o texto caiba na boca como um protesto impede que o medo, as dores e as fragilidades possam coexistir na mesma carne. Revelar a marca das cicatrizes pode expor e antecipar, a elaboração, a colocação, do discurso. É o tipo de aprendizado que nos humaniza e nos fortalece para a superação que se avizinha.

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