Grupo Mythus vasculha o vazio do mundo cinzento de ‘Fando e Lis’

Grupo Mythus vasculha o vazio do mundo cinzento de ‘Fando e Lis’

Leandro Nunes

31 de outubro de 2019 | 11h12

O grande desafio de textos celebrados é que as obras parecem antecipar sua própria identidade em nossa imaginação. Shakespeare, por exemplo, enfrenta um imaginário que só parece fortalecer sua dramaturgia, ao longo dos séculos. Ao lado dele, Nelson Rodrigues e Beckett também sustentam um ecossistema criativo autônomo e desbravá-lo faz parte de uma saga essencial ao artista.

Fernando Arrabal também pode ser considerado um desses autores. Quando funda sua dramaturgia, principalmente em Fando e Lis, o ambiente árido proposto no texto e tão caro à encenação teatral oferecendo imaginário surrealista para o filme de Alejandro Jodorowsky.

FOTO: Jamil Kubruk

Aliás, a perspectiva do filme de 1970 pode apontar caminhos conceituais importantes para a montagem do grupo Mythus, de Macatuba, também presente na programação da mostra de teatro Qualificação em Artes, da Poiesis.

Embora cinzento, o universo de Tar sobrevoa nossa atualidade de diversas maneiras. Há quem entenda a complexa relação das personagens na imprecisão que só a poesia oferece, mas parece haver mais.

Em tempos digitais – lembrando que o texto é de 1955, a peça é um convite a repensar a ideia de solidão e abandono. A comunicação tão sonhada e aperfeiçoada pela tecnologia não entregou o ideal de um mundo conectado, justo e coletivo, mas aprofundou os métodos de exploração, a guerra comercial e a desigualdade. Veja, por exemplo, a própria natureza da criação da internet: vigilância e comunicação na guerra.

Subverter o suporte, nesse caso a digitalidade, sempre foi um movimento dos poderosos. O que resta aos desassistidos é o sonho amargo de uma esperança que nunca foi vislumbrada.

Digo isso, ainda distante da encenação proposta pelo grupo, porque é necessário reimaginar o teatro do qualquer tempo sob o teste dessa contemporaneidade. Não se trata de atualizar dramaturgias, mesmo que para este objetivo existam métodos.

Na adaptação do texto de Arrabal, o elenco de Ivo Nascimento, Sabrina Leme Burato, Eduardo Santos, Fabrício Faustino e Rodrigo Caetano percorrem a aridez surreal da peça em um deserto de palavras. Não se trata de diálogos simples. Há que se depurar, menos pelo caminho das intenções, e mais pela inventividade.

E isso acontece no jogo do trio de coro. Há uma proposta que encontra ampliação, no jogo cômico e físico entre os atores, acompanhados do figurino e adereços.

Como em Fim de Partida, de Beckett, por exemplo, o humor ácido do quarteto confinado no apocalipse, depende da força imposta para, não encaixar-se nas personagens como uma luva, mas buscar no trabalho atoral a energia necessária de entregar o campo subjetivo que rondas as palavras.

Em Fando e Lis, as condições físicas concedem ritmo às palavras e as possibilidades das personagens e como se estivesse apartado do trio, a dupla constitui um conjunto diverso, como se tratasse de outro espetáculo, simultâneo, e embora não ruidoso, mas que carece de ajustes nos tons.

O vazio maluco proposto por Arrabal serve para implodir toda tentativa de direcionar linguagens, (isso talvez seja a grande arma dos grandes autores), no entanto, as cores cinzas com as quais ele concebe as sombras das personagens podem ser pistas mais que essenciais na composição, não de um registro de interpretação, mas da construção de um entendimento de corpo na cena, de jogo teatral, e de certa unidade, que possa apontar para a solidão, quem sabe, que nos ronda nas telas acesas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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