Glitches no Funeral de ‘Adeus, Palhaços Mortos’

Glitches no Funeral de ‘Adeus, Palhaços Mortos’

Leandro Nunes

15 de agosto de 2016 | 20h48

A morte sempre vai inspirar, e permitir, a renovação. No entanto, para quem fica, surge o descaminho de estar órfão. É uma pane, uma falha no sistema, uma ponte que cai sobre a, antes, fluida existência. Por sua vez, nada disso pode interromper a plena operação no mundo dos vivos. Há outras alternativas se insinuando e a justa ferramenta que está nas mãos é o que pode torná-las viáveis.

Bem, uma perua Kombi pode ser usada como uma perua Kombi. Não se você for um palhaço. Esse tem sido o espírito da turma da Academia de Palhaços. No ano passado, o automóvel da companhia, utilizado como palco e armário de cenários e figurinos, teve um problema mecânico e se incendiou (mais explicado aqui).

Cubo metafísico

Cubo metafísico

Diante de espetáculos que imbricam linguagens e carregam certa obsessão com a forma, a conta costuma vir alta para o elemento mais artesanal do teatro: o ator. O corpo, a voz e o calor ficam ausentes no meio de tanta visualidade. Nada disso acontece com o espetáculo Adeus, Palhaços Mortos. Inspirado no texto de romeno Matei Visniec, o grupo subjuga forma, conteúdo e por que não, passa dos limites.

Na encenação de José Roberto Jardim, o diretor engendra dentro de uma caixa, formada por três telões, assinaturas variadas e particulares dos artistas do grupo.

O que está por vir, instaura, como a própria morte, e como o próprio título da peça, dois mundos: o ‘adeus’ de quem fica, e os ‘palhaços mortos’, a quem é feita a despedida. A posição da vírgula, que separa uma coisa da outra é onde está localizado o trabalho do grupo.

O trio Laíza Dantas e Paula Hemsi e Rodrigo Pocidônio entrega a trama de competição mercadológica de velhos artistas, com as devidas ironias sobre arte contemporânea, do já cansado e malfadado pós moderno e o precário lugar de subsistência desses fazedores de arte. Abrigadas no cubo, as gags cômicas são desidratadas até se tornarem frames, imagens fixas. Cada personagem desfila suas características, como se já estivesse na entrevista que vai contratar apenas um deles.

Logo, o cubo se tornará pequeno para os exageros, os risos e as maldades desses palhaços. Todos os três se identificam pelos antigos e idos tempos de glória, no qual faziam sucesso. E o desmantelamento da arte é encarnado no corpo deles. O que vemos são espectros decaídos em um purgatório coloridíssimo.

Um trio que renasce

Um trio que renasce

Cabe aqui um espaço especial para a direção musical de Tiago de Mello. A performance com o som já começa enquanto a plateia se acomoda. A partir do barulho incomum de uma palma sintetizada, Mello marca o ritmo entre cenas e estetiza esse circo metafísico.

Para que o espetáculo se aconchegue nas bordas desse portal, está claro que é preciso manejar o tempo. A montagem com 70 minutos de duração tem seus ponteiros, ora esticados, ora comprimidos, com o apoio do som eletroacústico e das imagens concebidas pelo Coletivo BijaRi.

Ao lançar mão de uma narrativa em espiral, a peça joga um olhar irônico sobre esse tipo de arco, já tão clichê no teatro contemporâneo. Por outro lado, o subterfúgio mina a sensação de passagem do tempo. Parece durar horas.

Não quer dizer que incomoda porque se trata da ferramenta construída para o jogo. Ela funciona como uma predição, um ritual com regras particulares para acessar essa mescla de mundos, marcados pela coexistência do vazio e do exagero.

Além disso, a montagem ganha sofisticação com o uso das parábases. O acesso a uma linguagem da comédia grega rompe com (sem trocadilhos anacrônicos-brechtianos) todas as paredes da caixa. A interrupção do sistema ejeta os palhaços desmontados de seus brilhos para o agora da plateia. E esse agora não vai ambientar as boas virtudes dos personagens.

Pelo contrário, ao baixar suas máscaras íntimas, eles deixam o lado espectral e revelam seu correspondente humano: figuras regadas pela cerveja e iluminadas pela tela do celular. Quase vícios miseráveis, presentes no intervalo da arte.

Mas não tarda para que a caixa os sugue novamente, salvando-os do estado patético dos nossos tempos para a fantasmagoria divertida daquele universo.

A orquestração da forma, portanto, vai do corpo dos atores ao figurino, do cenário a trilha (presente no volume alto, nos ecos e distorções). Adeus, Palhaços Mortos reaviva e renova com incômodos glitches o estado de letargia criativa de grande parte do teatro de grupo paulistano.

 

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