Festival de Curitiba: A desordem natural das identidades em ‘Protocolo Elefante’

Festival de Curitiba: A desordem natural das identidades em ‘Protocolo Elefante’

Leandro Nunes

03 Abril 2017 | 17h13

Um copo de vidro cai no chão. As condições para este processo são diversas e, certamente, adversas, a não ser que a serventia que copos de vidro têm é cair no chão.

Perto de morrer, os elefantes abandonam a manada. Qual a serventia dos elefantes? O que parece ser o traço primeiro de uma reta, também aparenta destinar um fim para ela. Por isso, o cansado conceito de morte nas artes pode operar um sistema nada complexo, altamente dramático, arquetípico e ritualístico-ocidental. Nada contra.

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Foto: Lina Sumizono

Mesmo assim, o posto mais próximo –  e vivo – do que é possível saborear da morte, seja talvez a perda. Nesse caso, a atitude humanista de tentar apreender o fato final da vida biológica se configuraria egoísta porque implica na defesa do próprio luto ante uma ausência particular, como a perda de um ente querido, ou coletiva – ainda que não signifique universal. Nenhuma ausência é universal, porque o componente da presença é domesticador e local. É o que equilibra as pontas da vaidade e do desespero.

Apesar disso, posicionada em determinada coletividade, como o elefante, a atitude de retirada pré-auto-luto encampada pelo animal prevê na desordem um desmantelamento natural. É por este arrasto que o grupo Cena 11 desvincula em seu Protocolo Elefante a ideia de indivíduo e identidade.

Permeados pela consciência da morte, os elefantes costumam abandonar seu grupo e empreender um afastamento de encontro ao próprio fim. Por aqui o ambiente que contextualiza o comportamento ressoa como as vozes dos performers.

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A seguir, esse método pauta o rito, em uma movimentação que não inclui a andar e som característicos de um paquiderme de seis toneladas. A equalização desse importante instante contribui para a construção de um ambiente sonoro, imagético e visual com semelhante unidade. O corpo como matriz criativa repercute vestígios que evocam um ritual tão só quanto coletivo.

O coro solitário espraia para a plateia com seus sons e ilusões de luz e no apego individual que é acessório de transformação para dos performer. Leva tempo para que essa potência realmente ganhe aderência com a plateia. O silêncio das batidas ou dos instrumentos executados ao vivo sustentam estados de impermanência que jogam com a atenção da audiência.

O funcionamento desses estados regula a repetição de uma corporeidade quase carregada de inconsciência coletiva. Dada a repetição, dos giros, ou o caminhar sagrado que estende o palco para a plateia, a aflição concebida não dá trégua para o desespero de abandonar as bordas da coletividade.

A sorte do indivíduo não funcionar como antagonismo do fim ajuda a triangular o olhar, conferindo o destino como parte integrante da solidão. Ao partir para uma interpretação quântica dos eventos, a coreografia insulta a falta de versatilidade dos aspectos sociais, que por vezes determina o indivíduo por meio do comportamento, poder e função.

A ambivalência do conjunto se concretiza, inicialmente, nos tons individuais. Tem-se um corpo coreográfico diverso e irregular, desde aquele cujo corpo de bailarino é um ruído ao estado meditativo que a montagem propõe, até corpos que parecem desconhecer a virtuose da dança, da interpretação mas demoram para tomar decisões reais no palco.

De alguma maneira essa configuração pode impedir certa unidade visual, ou forçar os olhos da plateia para perseguir performers preferidos. Por outro lado também pode servir de pistas que reforcem o caráter particular de cada morte, cada perda.

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Cena 11