Festival de Curitiba: A borda dos sonhos em ‘Chão de Pequenos’

Festival de Curitiba: A borda dos sonhos em ‘Chão de Pequenos’

Leandro Nunes

12 Abril 2017 | 13h13

Os sonhos como catalisadores de ações ganham força quando são impulsionados pelo coletivo, mas em dupla já é o bastante.

O tema da adoção toca questões que vão da política ao retrato romântico e desgastado de uma família tradicional como núcleo único de amor e aceitação. No Brasil, enquanto casais do mesmo sexo encontram dificuldade para adotar crianças, heterossexuais sustentam o abandono ao criar critérios para suas escolhas que dificultam o acolhimento de jovens e adolescentes não brancos.

Nada disso serve muito para refletir Chão de Pequenos, que escolhe o embate das falácias em torno da adoção na voz de dois adolescentes que vivem em um abrigo.

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Foto: Nilton Russo

A montagem com direção de Tiago Gambogi leva a dupla Felipe Soares e Ramon Brant em uma coreografia de palavras e movimentos que percorrem o drama dos sonhos. Um queria ser piloto de corrida e o outro apenas viver ouvindo o silêncio.

Logo as experiências passadas brotam na narrativa, o personagem de Soares já tinha sido adotado, mas “devolvido” por não conseguir se adaptar com a nova família. Negro, suas chances já nunca foram simples (em geral, casais buscam crianças recém-nascidas de pele clara), enquanto o jovem vivido por Brant compartilha um otimismo natural e lidera o trabalho de pedir esmolas na rua.

O conflito se marca na dupla pela consciência de sua condição diante da condição livre de sonhar. Suas identidades pesam nos armários que carregam seus nomes e pequenas lembranças de quem são. A luz que brota dos objetos serve como espelho. Dilata a memória como um refresco no meio do turbilhão de realidade.

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Foto: Nilton Russo

A construção corporal, que se equaliza com o texto, promove leveza dos corpos jovens e masculinos, no equilíbrio entre a amizade e o afeto. Os espasmos físicos e a sensação de abandono ressoam no figurino versátil e puído ao envolver corpos vivos e desconhecidos numa bolha periférica instantânea.

Uma surpresa final transforma a realidade dos amigos. O que sobra de dor escorre para o corpo que compartilha sua virtuose como resíduo de viver no limite engastado da liberdade. Chão de Pequenos reúne no vigor da dupla, no descanso e simpatia do sotaque mineiro e na força da coreografia um história marcada por amizade e honestidade.

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