Em ‘peça-conversa’, grupo Quatroloscinco dá corpo à poesia de algo tão impalpável quanto o afeto

Em ‘peça-conversa’, grupo Quatroloscinco dá corpo à poesia de algo tão impalpável quanto o afeto

Leandro Nunes

09 de março de 2019 | 12h07

A repetição de dispositivos cênicos e um mergulho pouco original em temas sociais e políticos levaram parte do teatro contemporâneo paulistano a acreditar que por ser apresentado na mesma faixa de horário do Jornal Nacional, sua função é a de elencar principais manchetes do Brasil e do mundo.

É como se, a natureza contestatória deste teatro exigisse a legitimação do que se produz no noticiário nacional, para que seja considerado urgente e relevante para o momento atual.

A sensação de que exclui-se do processo criativo a intensa reflexão/depuração fica demonstrado em produções que tem como mote o esforço para defender um ponto de vista.

FOTO: GUTO MUNIZ

Chegamos ao ponto em que não é possível apontar onde começa o desgaste na mera encenação de temas caros ao País, como violência, gênero e racismo ou se a cooptação desses assuntos por parte do próprio circuito provocou certa overdose na qual todos os artistas da principal capital da América do Sul repetem-se como se fossem inéditos.

Na atualidade, o principal motivo para que São Paulo centralize o circuito teatral no Brasil é que a cidade ainda consegue promover intenso intercâmbio de grupos e produções fora do eixo Rio-SP.

Com tantas ameaças vindas do governo federal – como o fim do Sistema S, por exemplo – se cumpridas, sofreremos impactos em termos de produção, claro, mas também de retrocesso estético, porque a cena ainda se comporta de modo analógico, de tão pouco integrada à diversidade cultural do País, sequer pode ser chamada de teatro brasileiro.

Quanto à importância desse interferências, o espetáculo Fauna, dos mineiros Quatroloscinco, reforça algumas impressões levantadas neste texto.

A montagem tem uma arquitetura tão simples de explicar quanto complexa de se apreender. A dupla Assis Benevenuto e Marcos Coletta se inspira na obra O Circuito dos Afetos, do filósofo Vladimir Safatle, o que parece apontar para um universo de assunto bem… abrangente e impreciso.

A peça resgata palavras sobre liberdade, desejo, violência, família, amor, existência, sonhos. Não há um história guia ou uma narração que imponha papéis aos atores. Tudo cabe. Eles vão de uma visita a Auschwitz a uma cerveja gelada.

Fauna constrói, aos poucos, um imenso ecossistema com todos esses elementos, criando um painel sobre o afeto, sentimento tão selvagem e rebelde às palavras.

Nesse sentido, a dramaturgia carrega consigo a consciência de que não existem definições científicas ou verbetes em dicionários que ultrapassem a competência da poesia na cena. Em um momento, a dupla recorre à memória, em outro, experimenta ouvir respostas recém imaginadas por alguém da plateia.

É preciso dizer que Fauna flerta com elementos de um teatro relacional que na cena paulistana – voltamos a ela – tanto parece ser ignorado quanto considerado ser de um teatro sem talento pra ser claramente popular, aquele que incorpora a participação do público para constrangê-lo na famigerada quarta parede.

Em uma zona de tanto risco, que pode falhar em romantizar a vida e o palco, a direção de Fauna, em afinado estado com o texto, parecer trabalhar junto a um microscópio, sem perder de vista, e olhando de muito perto as pequenas partículas de energia responsáveis pelo ritmo da dramaturgia e pelo jogo colocado pelos atores.

São cenas em que a fragilidade do discurso não é resultado, nem armadilha, ou desonestidade. Essa peça-conversa é ordenada por fluxos que não se submetem à ordenação de um texto, ou da interpretação, ou da direção.

Na verdade, as forças do espetáculo são múltiplas, vindas, sem que sejam anunciadas, da poesia, da música, do texto, da luz, de imagens, e exigem um olhar atento para que se identifique seus nascedouros, suas direções e caminhos.

Na plateia, o exercício é de intensa invenção do que compõe esses fluxos, cria-se então uma intrincada rede, um ecossistema, no qual o humano não está no centro, mas integrado em conexões que não possuem pontas desligadas e é nutrido pelo conjunto e como conjunto.

Por escolher um material tão impreciso como o afeto, Fauna desliza sobre temas da sociedade como um apanhador, uma peneira grossa. Ao público é concedido a virtude de ser incauto e oferecer-se como parte integrante, sem precisar inventar sobre si uma persona que o resguarde. A musicalidade segue o mesmo caminho, irrompendo na dramaturgia como música, não como acessório, ou como ambiência.

Nesse sentido, o palco configurado pela peça torna-se encontro em que o não despojado já nasce assim. Não interessa aqui friccionar fronteiras buscando o efeito do conflito, mas explorar a totalidade do que é. Por isso, a peça é trabalho ambicioso de se descrever, por despertar tanta subjetividade em sua forma. Continuar escrevendo sobre Fauna então seria um exercício de grudar pontos extremos do mundo, algo de ordem atômica. São aqueles paradoxos da vida e é uma festa quando isso acontece na arte.

 

 

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