Em ‘Fim’, caráter místico do elenco reverbera pessimismo sobre o Brasil atual

Em ‘Fim’, caráter místico do elenco reverbera pessimismo sobre o Brasil atual

Leandro Nunes

12 de abril de 2019 | 17h27

Foi com certa decepção que Democracia estreou na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, MITsp.

A peça de Felipe Hirsch, com elenco chileno, apresentada no Teatro Faap, era um estranho dispositivo que tinha algo a dizer – a ele.

Ao olhar para a Comédia Latino-americana, seguimento da anterior A Tragédia Latino-americana, ambas do diretor, e ainda antes, com Puzzle, o mergulho na literatura junto com uma direção mais frouxa, que deixa o elenco mais autônomo durante a criação, parecem duas grandes ausências em Fim.

Foto: Elisa Mendes

Ao propor vislumbrar o extermínio de segmentos/setores da sociedade, o autor Rafael Spregelburg oferece um exercício de linguagens pronto a desafiar o palco. Na mira estão as Fronteiras, a Arte, a Nobreza e a História, remendos sociais que mantém a trama da sociedade livre da convulsão, mas que não são capazes de purgar a si mesmas.

Nessa brecha, o texto entreve, com humor, o cataclismo que atinge as áreas. Como um profeta – ou testemunha – Renato Borghi é o digno ator convidado do elenco.

Ao adentrar o espaço entre dois territórios, Borghi dilui-se na cadência da própria fala, nos cacoetes dos idiomas, em uma fala de cores tropicalistas. Sua atração em cena lembra o recente Abelardo I de O Rei da Vela, um showman do fim do mundo.

E ele não perde para o Fim da Arte – talvez o quadro mais óbvio, pelo tema tão debatido no setor – que ganha com a chegada de Amanda Lyra.

Das peças em que atuou no Tablado de Arruar, a atriz encontra engate como a professora debochada, ao lado de Rodrigo Bolzan. O discurso importa menos que o que ela faz com a vela, implodindo a ideia de transcendência que a arte busca com tanta ingenuidade.

Como a mulher invisível incapaz de desaparecer, ela chega em O Fim da Nobreza, junto a uma Magali Biff psicótica e sorridente. Superada qualquer representação do que se chama burguesia, no teatro dos últimos anos, a atriz consegue canalizar a alienação ao poder, às posses e ao próprio dinheiro, incapaz de reconhecer em uma nota, a presença simbólica de um pedaço de papel.

No último quadro, o espetáculo não esconde o pessimismo pelos eventos recentes no País. Adornados de tragédias políticas e desastres ambientais, o Brasil ganha sua data de validade. É o fim. O que ainda estamos fazendo aqui? Os atores fazem o que sabem fazer: ensaiam.

A peça que ensaiam é antiga, e eles tentam descobrir o que fazer. Incansável como um teatro contemporâneo que só vive de citações, os atores ensaiam.

É nessa na repetição que se faz o velho ritual do teatro. Em Fim, a encenação é capaz de aglutinar seus elementos  – ao contrário das produções anteriores de Hirsch -, consciente de que seu elenco brilha, seu texto brilha, e a plateia responde com aderência.

A peça surge como articuladora de algo singular no palco. Aqui, não se trata de resistência, palavra bonita que adoça o paladar de quem gosta de sonhar.

Na montagem, não se esconde a frustração, a falência, não como ferramenta de mediação com o real. O aniquilamento das coisas difere, mais uma vez, da resistência, esta que sempre será mais contestatória, embora menos ofensiva, menos conquistadora.

Na repetição dos ensaios de O Fim da História, a peça apela à forças centrífugas, criando fagulhas atemporais. É quando o palco de Fim transforma-se em um angustiante inferno dantesco, inquebrável e suspenso no tempo.

Ao implodir o ideal, o sentido democrático da luta política e a ineficiente resistência que assola os artistas deste tempo – algo incapaz de manter teatros abertos, como o Teatro Sergio Cardoso e as Oficinas Culturas – o espetáculo derrama seu copo de fúria no Brasil que existe no interior de cada brasileiro. O que falta ao país superar?

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