‘Dogville’ perde a chance de desvelar o cinema de Lars von Trier no palco

‘Dogville’ perde a chance de desvelar o cinema de Lars von Trier no palco

Leandro Nunes

29 de janeiro de 2019 | 20h37

Quando a câmera passeia pela paredes imaginárias de Dogville, não há sujeito que ignore a delicadeza da pequena vila do diretor Lars Von Trier.

O ranger das portas, o barulho do sino, colocado na torre incompleta, o som imaginário dos animais silvestres, os latidos de Moisés, em contraponto com o som e a presença real de um automóvel, são elementos singelos que compõem o mini universo nos primeiros minutos do filme.

FOTO: JF DIORIO/ESTADÃO

A experiência de quem assiste é logo um convite ao estranhamento, ao ver aquele ‘teatro filmado’ que ultrapassa suas próprias definições. Há sempre muito o que falar sobre o filme do diretor dinamarquês.

Em cartaz no Teatro Porto Seguro, a montagem de Dogville, dirigida por Zé Henrique de Paula, para os palcos pode impressionar, claro, pelo numeroso elenco.

A trama segue a proposta do filme, sobre a “desconfiança do bem”, que permeia a peça do início ao fim.

Se no filme, a câmera conduzida pelo diretor oferece mil pontos de observação sobre a tortuosa história, na peça temos tudo que o palco italiano pode dispor. A luz artificial, que nega o próprio manifesto Dogma95, do diretor também está lá, acentuando o estranhamento de Brecht na pequena vila.

No longa, a reinvenção da cidade configura quase a totalidade da história que é contada, servindo como esteio da imaginação, ao drenar da teatralidade um impulsionamento para a experiência audiovisual.

Levando em conta esse jogo tão sutil que torna o suporte parte do algoz da trama, seria difícil esperar que uma produção teatral co intitulado Dogville buscasse encarar a cena sem a consciência dessa dimensão criada pelo diretor dinamarquês.

No que diz respeito à direção dos atores e do texto, a peça cumpre o roteiro do filme, entregando a história, do início ao fim, desde a chegada de Grace (Mel Lisboa), até sua reação à convivência de Dogville.

Sem a possibilidade de observar os pontos que mapeiam a vila, a principal personagem, cabe a plateia imaginar suas descrições. A organização das casas fica na conta dos atores, e das muitas cadeiras. Junto com essa descaracterização, acompanha todo imaginário dos sons da vila, que não existe, exceto o sino, que toca.

Mesmo assim, no momento mais tenso, na cena sobre os votos para que Grace permaneça na cidade, curiosamente, o sino não solta suas badaladas. A personagem apenas faz o gesto de que puxa a corda.

Mas nada disso incomoda mais que o fato de não haver um desejo de dialogar com o audiovisual em cena ou uma ação que demonstre a compreensão do potencial da proposta a ser explorada no palco.

O que há na peça são câmeras abertas que projetam imagens dos atores em cena. Isso há em Dogville e em 80% das produções paulistanas contemporâneas.

Para não dizer que não há, em uma cena inicial, as famílias se reúnem atrás de uma tela que projeta pequenas bolas de vidro, com micropaisagens. Não dura mais que segundos.

Já no meio da trama, surge uma boa oportunidade. A chegada dos policiais para conversar com Chuck (Fabio Assunção) vem como refresco, mas parece ter saído do filme Back to The Future, ou de alguma novela policial da Globo, dado seus figurinos contemporâneos e bem passados, em contraste com o estilo pacato de uma cidade esquecida.

Não é simples, ao escrever sobre teatro e apontar ausências, mas o universo audiovisual que Dogville-filme oferece não ganha contestação na montagem, ou provocação, ou diálogo, ou repetição, objeção, ou cópia, que fosse.

É material criativo ignorado, que nas mãos de uma direção esperta poderia conjugar as dimensões do palco à parceria irresistível da câmera, tão presente nos espetáculos da diretora carioca Christiane Jatahy, só para dar um exemplo, rara em compreender esse tipo de trânsito criativo.

No elenco, o narrador (Eric Lenate) surge como caminho de materializar a presença, condição inescapável do palco. Mas, aos poucos, as demais personagens passam a ocupar a posição de narrador.

Na metade da peça, elas narram com a naturalidade de um personagem-consciente, mesmo com o narrador presente. Isso descaracteriza a presença e função do narrador e também enfraquece o sentido da encenação, porque passa a ser possível questionar a natureza das ações das personagens. Ou seja, questiona-se também a dramaturgia.

No filme, a violência praticada e a exploração que Grace sofre só funciona no âmbito dessa inconsciência do mal por parte desses “cidadãos de bem.”

Se eles fossem capazes de estranhar o próprio mal interior, teríamos um drama que não se relaciona com o estranhamento de Brecht com que flerta o diretor dinamarquês.

No fim da peça, o alento é a resposta da mulher, e o trabalho do elenco, guerreiro. Com a plateia sobra o desejo de que Dogville fosse transfigurado em “filme-teatrado.” Doce ilusão, seria coisa de gênio.