Como implodir os fundamentos do real em ‘In On It’

Como implodir os fundamentos do real em ‘In On It’

Leandro Nunes

13 de abril de 2016 | 10h00

Daniel MacIvor fala de futuro.

Em boa parte de suas produções cinematográficas, o ator, diretor e dramaturgo canadense se insere em escolhas que tratam de encaixar as relações homossexuais bem diluídas no cotidiano, aliás, como talvez deveria ser, como foi no microcosmo de Wilby Wonderful, no qual escreveu e dirigiu. Por outro lado, ele também não deixa de salientar recortes interessantes do universo gay, como a versão masculina das pin-ups, em Beff Cake, do qual MacIvor integrou o elenco, e na codireção do fogo juvenil de Boys Briefs. De certa forma, no teatro, ele conduz uma assinatura semelhante. É em seu metateatro que o autor intenta amalgamar elementos simultaneamente incomuns.

A premiada In On It vai por uma trilha que reconhece o protagonismo das ações humanas na variedade rotina do dia a dia. O ato criador comunga do mesmo holofote que o ato de representar, ou mesmo da representação de quem está representando. Pode parecer complicado ler, mas não se trata de apenas “uma peça dentro de uma peça”.

Emílio de Mello e Fernando Eiras por dentro

Emílio de Mello e Fernando Eiras, por dentro

A engenharia retomada pelos intérpretes Fernando Eiras e Emílio de Mello na montagem brasileira adentra o furação narrativo de MacIvor no qual o fazer teatral prostra todas as suas teorias e ferramentas, desenvolvidas ao longo de toda uma era, aos pés de um espetáculo. Por assim dizer, MacIvor dobra o Teatro para criar um material fundido próprio.

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Mais que romper as paredes que isolam a obra teatral do público, os atores engendram mini performances que se atravessam e transitam entretempos. A dupla convoca a interpretação como ferramenta para dedilhar as notas de uma história que não desata arestas em sua compreensão. Aparentemente, as triplas narrativas apresentadas não se fundem, uma vez que não nascem fendidas. Bem, talvez essa sensação poderia ser uma reação do cérebro de conceber as histórias ou de tentar montar uma sinopse mental.

Uma resposta pode estar no riso, que é detonado na plateia ao perceber ou reconhecer as ultrapassagens dos atores por entre as camadas apresentadas, por outro lado, o irônico desdém às questões relativas do fazer teatral se mostram engraçadas, sem, no entanto, serem lidascomo piada interna entre artistas do meio. A generosidade do autor entrega uma obra à serviço, em primeiro lugar, do humano. A singularidade é que o caminho escolhido por ele foi o teatro.

No palco, a dupla de atores desenvolve uma cartela de movimentos para alcançar o time de personagens e suas intrincadas histórias. Por vezes, estas são pinçadas do passado ou observadas como num portal. A crueza e incompletude das figuras, em suas emoções ainda mancas, se chocam com um arsenal maduro de corpos e vozes. É o avesso de máscaras invisíveis, besuntadas de passado e futuro, e concretizados na fornalha do presente.