Como contar a história de ‘Garrincha’ para crianças

Como contar a história de ‘Garrincha’ para crianças

Leandro Nunes

25 de abril de 2016 | 20h03

Leandro Nunes

Como se faz para comparar artistas? Aliás, isso se faz?

Provocar essa interrogação faz surgir algumas métricas nas quais se intui a força de artista, tais como o tamanho de sua produção ou impacto de sua obra no mundo. No caso do futebol brasileiro, os artistas dos campos Mané Garrincha (1933-1983) e Pelé, 75, serviriam muito bem como experimento. De pronto, as gerações mais novas (a minha) poderiam elencar o segundo como o grande rei, dado o tamanho de sua produção, mas, certamente as gerações mais antigas discordariam em decorrência do impacto do futebol de Garrincha.

Por isso mesmo, as pernas tortas de Mané precisavam ser conhecidas, em todo seu drama regado a álcool e a glória dos seus dribles, como foi registrado na biografia de Ruy Castro. Para longe disso, o espetáculo de Robert Wilson vem para curar toda agonia hepática para poder transitar livremente no universo do homem que foi chamado de A Alegria do Povo.

Face a assinatura plástica do diretor – o uso vistoso de cores no cenário e nos figurinos, o contraste de objetos com a luz presentes na montagem de A Velha, em sua última passagem pelo Brasil, agora Wilson encampa a primeira produção com elenco brasileiro. E é com esse corpo quente que o diretor esculpe movimentos mecânicos e expressões histéricas, como a dos rostos mudos de Mikhail Baryshnikov e Willem Dafoe, na montagem de 2014.

Garrincha

A narrativa contada por um par de araras, tem o espírito inquieto das aves. Ao acompanhar os movimentos dos atores, a trilha executada por um quinteto retoma a atmosfera de um musical, ou desenho animado, ou “ópera das ruas”,  termo que acompanha o título. No palco, os corpos são embebidos em personagens brilhantes, sonoros e intocáveis.

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Entre uma cena e outra, a troca dos cenários parece exigir tempo. Instantes nos quais o diretor dá protagonismo para às conversas das aves, ou coloca o elenco todo para correr, em um perpétuo intervalo. Entre eles, os atores Roberta Estrela D’Alva e Robson Catalunha surgem nos versos do rap cantados pela da atriz e na risada inconfundível do ator.

O ritmo elétrico picota as cenas e a chance de apreciação de qualquer elemento. Quando surge um samba mais doce, logo ele é atravessado por um som estranho, ou um black out ou mais personagens correndo. A visualidade que promete preencher os olhos, aos poucos, se dilui em paletas repetidas. A cena do automóvel destroçado encontra terrível espelhamento nos Sonetos de Shakespeare (2014), dirigido pelo próprio Wilson. Mas a história do jogador existe. As referências ao alcoolismo, o clamor pelo seu futebol e a relação confusa com Elza Soares estão lá. E quando Garrincha vem para o palco, é para sorrir.

 

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