Com quantos graus Celsius se faz ‘Gata em Telhado de Zinco Quente’

Com quantos graus Celsius se faz ‘Gata em Telhado de Zinco Quente’

Leandro Nunes

14 de junho de 2016 | 10h30

Leandro Nunes

A frieza combina muito bem com a falta de comunicação. Para mudar isso, surgiu o dramaturgo Tennessee Williams. A atmosfera subtropical do Mississipi com seus verões longos e quentes é um farto celeiro de uma úmida indiferença que abastece a família Pollit. A mesa está posta e os pratos cheios. Pelo fruto do trabalho, cabe o pão ao trabalhador. Quando se fala em herança, a famigerada “meritocracia” começa a aparecer. Os laços de família deixam suas funções de assegurar a tradição para servirem de corda pronta a enforcar os queridos parentes. Todas essas correlações surgem para ajudar na exumação de uma reunião de estranhos com o mesmo sangue.

A obra de Williams ambienta um festejo fajuto para celebrar a sobrevida desnecessária de Paizão. O homem detentor das terras mais férteis para o cultivo do algodão – em cenário límpido com maciez singular transpira a arrogância dos antigos que fizeram do trabalho o único projeto de vida. E quando o gato não está, os ratos da casa festejam. Seja pela desfaçatez de Mãezona, ou da pura ironia da Mae e seu marido Gooper, a família quer enterrar Paizão. Por outro lado, quem presenteia o robe negro luto é Maggie, papel dos sonhos de Bárbara Paz, em uma inocente sugestão de velório ao velho.

O espetáculo de Tolentino recupera a verborragia familiar de um texto que já começa com bastante velocidade. Entregar esse histórico de intimidade familiar é o maior desafio. Não são personagens que se conheceram há pouco, mas figuras que convivem cotidianamente e que reconhecem bem as feridas e garras de cada um. Assim, todo ataque é certeiro, bem como as esquivas.

“Se não aguenta, então pula!”

Bárbara mergulha na difícil missão de conceber uma Maggie altamente política, que reconhece a importância de sua imagem, frente aos familiares, uma vez também que ela é a agregada e, portanto, precisa gerir sua “marca” com o profissionalismo de uma grande agência de propaganda e marketing. Mas o que a enfraquece, em cheio, a personagem, em cheio, é o marido Brick, homem alquebrado e envolto em um imaginário de Aquiles. Sendo assim, trabalho dobrado. Cabe a atriz, conduzir um corpo quente do tesão inalcançado e da guerra aberta no seio familiar. Maggie, então, mais que um termômetro, surge como um termostato, figura central que apresenta seu ponto de vista sobre os Pollit. Seu tempo para garantir a personagem é logo no início, diante do trôpego personagem de Augusto Zacchi, Bárbara desfila todos os antecedentes seus, do marido e da família. A dramaturgia de Williams exige corpo, olhar, voz e tudo junto. Com a imagem anula do marido, Maggie se eleva nas alturas do salto baixo com a ambição de uma ninfa.

A segunda metade do espetáculo ganha em dramaticidade com a entrada de Zécarlos Machado. O experiente Paizão não tem medo de bradar sua voz no retrato de um homem grosseiro, estúpido e, em paradoxo, admirável. Se todos da família não para de olhar para o ator, tampouco a plateia, que bebe da sua boca os palavrões mais devidos frente as faltas preocupações dos parentes. Toda essa força desemboca no diálogo com o filho,  quando a montagem cresce. Próximo do final, o encontro de todos os personagens perde força, e carece ganhar organicidade no tempo entre ações e reações. O mistério que envolve a sexualidade de Brick desperta o personagem para defender sua reputação. Surge aí, a complexidade de Paizão. O homem capaz de destratar a esposa, em claro ator machista, afirma que não se importará caso o filho seja gay.

 

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