Com cabines onde tudo acontece, ‘Lovlovlov’ se isola do teatro

Com cabines onde tudo acontece, ‘Lovlovlov’ se isola do teatro

Leandro Nunes

22 de novembro de 2017 | 16h25

Quando o cinema elege uma figura pública para relatar sua vida e morte, por vezes, o universo realista pauta o passeio pelo mundo do biografado, busca uma caracterização crível das personagens, a fidelização de sua imagem na tela, um cinema para Stanislavski deitar e rolar.

A graça do teatro é que é possível abordar brechas e submundos não oficiais ou mesmo o inconsciente coletivo que constrói um artista, político, militar, personalidade ou qualquer figura que tenha deixados rasgos na história.

Foto: Eleniza Dezgeniski

Ao falar do Brasil, de mídia e de guerra, Carmen Miranda foi embaixatriz histórica no período em que os EUA cultivava a política de boa vizinhança no tempo em que a televisão era o guru que morava na sala de todas as casas do mundo.

Ainda assim, sua vida ultrapassa a telinha, e coloca a portuguesa radicada no Brasil como uma entidade, um cartão de visitas estratégico no mundo permeado de Guerras.

Na intenção de revelar o amor e o terror na vida da Pequena Notável, Lovlovlov acessa as cartas escritas a punho pela atriz e cantora, com sua grafia peculiar, seu jeito doce e sensível de se comunicar com seu amor.

Longe de um tom documental, a peça extrapola as próprias referências que povoam o senso comum sobre a mulher. Nas cabines que separam o elenco e a plateia, tudo acontece, inclusive nada.

A construção por demais engenhosa e interessante solicita existência, pede ação, pede revolta, pede dor, pede sorrisos, pede para ser mostrada, talvez como um zoológico, ou um show de horrores, mas, curiosamente, a cabine que teria intenção de revelar, pela contenção, acaba isolando os atores de seu desempenho, como uma negação da própria função do intérprete em cena.

Logo, se as cabines não contêm algo que as justifique existir, elas e os atores passam a padecer de sentido, de motivo para existir em cena. Assim, para dissimular a ausência de desempenho, a peça encheu-se de distrações visuais/materiais, como tinta vermelha e terra, que em tão pouca quantidade, também deixa de acrescentar rumos à dramaturgia.

Foto: Eleniza Dezgeniski

Mas as cabines não estão sozinhas, em sua impotência. A dramaturgia que surge em fluxo, não oferece qualquer ponto de apoio para que se acompanhe o que está sendo dito, criando, o que parece ser consciente, um excesso de polifonia — são muitas vozes que não cessam de resmungar nos 60 minutos de peça — e atrapalham o desejo inicial de acompanhar o que virá pela frente. A música, por se tratar de composições predeterminadas, é a única parte em que é possível reconhecer-se em diálogo com a obra, mas quando finda, e surge uma nova cena, a distração passa a ancorar até que a próxima canção suspenda a inércia que ocupa a dupla de cabines.

Para a duração de uma peça como essa, tudo poderia ser um prelúdio, uma preparação, uma “alfabetização” para a linguagem que será introduzida, mas findo o espetáculo, sobram acontecimentos lançados sem mira, ações cumpridas (acendeu o fogo, escreveu a carta, prendeu o papel na cabeça, trocou de lugar, caiu a tinta, caiu a terra), como em um check up.

As cartas de Carmen viraram pretexto para algo que se anula harmonicamente. Diante do anseio de ver teatro (sair de casa para assistir a um espetáculo), na época em que a quantidade de peças em cartaz esqueceu o que é qualidade, tudo que acontece em Lovlovlov sugere que o teatro foi trancafiado em uma cabine, ou, dependendo do ponto de vista, deixado do lado de fora.

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