Coletivo Verum debate a vida escolar com a força juvenil da música

Coletivo Verum debate a vida escolar com a força juvenil da música

Leandro Nunes

14 de outubro de 2019 | 15h08

Foi no final do segundo dia da Mostra de teatro Qualificação em Artes que a programação começou a fazer sentido.

Do discurso idealista da Cia Pagu ao silêncio revelador da Cia Camarim, algo mais havia de ocupar os diversos espaços de linguagem e comunicação na mostra.

Foto: Jamil Kubruk

Um dos principais destaques, o Coletivo Verum, de Santos, reuniu uma adaptação do texto de Luis Alberto de Abreu com uma encenação enérgica e repleta de detalhes.

É claro que o épico trazido pelo texto oferece parte da trilha a ser perseguida pela companhia. No entanto, a identificação dos jovens atores e atrizes parece também compor parte importante do interesse por esse tipo de dramaturgia e das maneiras de se habitar a cena.

Com profundo interesse no canto e na música, o Verum reconhece na musicalidade sua principal assinatura – ou deveria ser identidade? Com um jogo estabelecido na rotina de uma escola e nos dramas de seus estudantes e funcionários, a peça desvela, como num roteiro de cinema ou novela, as descobertas do corpo, dos sentimentos, o mal da violência e da mentira.

Com todos esses elementos em jogo, não seria estranho que o grupo esbarrasse em uma concepção idealista das personagens e de seus destinos. Mas com bom humor, cada história é revestida com a pureza dos sentimentos, sem poupar ninguém das dores e dúvidas.

É a justa medida que faz do ambiente escolar algo entre sufocante e mobilizador. A descoberta das sexualidades, a violência doméstica e a gravidez precoce surgem como contratempos ao exercício de viver, nunca como acontecimentos fatais e permanentes.

Também, não há tempo para lamúrias. Ao fim de cada cena, e mesmo durante, a música percorre o compromisso de sintetizar sentimentos coletivos, de pontuar contextos indizíveis e expandir o jogo épico que reconhece no personagem e em seu intérprete um jogo por demais fascinante.

Claro que o grupo se seduz pelo drama, mas ele dura pouco, na cena solo de Mário cantando, mas o conjunto prefere dar vez à experimentação dos tipos. Um jovem interpretar um velho enquanto outro tirar humor do perfil surfista, ou rapaz praieiro – lembrando que o grupo é de Santos – são também formas de dinamizar a cena. Essa condução esperta se mantem desde o início, com um corifeu cruzando Shakespeare e a vida. E é preciso dizer o nome deles: Ariel Mota, Bárbara Santos, Karen, Farias, Gabriel Lobo, Gabriel Nunes, Luana Lobo, Rafa Tavares, Ramon Augusto, Rosane Lobo.

Outros núcleos de histórias precisam se esforçar mais para chegar ao fim justificados. Há mais singularidades para buscar no caso da gravidez precoce e do professor e sua companheira. Talvez se deleitarem mais no épico, exercitar mais essa representação difusa que amplia os sentidos e expõe a consciência das personagens.

Por vezes, o desejo é que o som da bateria fosse mais alto, como os teclados e a guitarra. Por vezes, também, seria melhor que a peça coubesse num espaço menor, para a plateia, e quem sabe num formato acústico.

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