Cia Gare navega na ‘Banheira Revolucionária’ de Matéi Visniec num mundo nada pacífico

Cia Gare navega na ‘Banheira Revolucionária’ de Matéi Visniec num mundo nada pacífico

Leandro Nunes

12 de outubro de 2019 | 12h17

Seja no absurdo de Beckett ou nos rinocerontes de Ionesco, a crueldade integra um caminho formidável do caráter tão antigo do homem civilizado.

Pela mão forte da violência fundou-se sociedades e gerir o poder implica reconhecer que o punho cerrado também é capaz de mobilizar populações, em tempos fanáticos.

Tal como a paz, a crueldade não garante o perfeito funcionamento das instituições – não por muito tempo. Xenofobia, racismo, machismo e homofobia se articulam pela violência e, sob ameaça de ruir, permanecem em pé alimentados pelo medo.

Nesse equilíbrio instável, a crueldade surge então como resposta às crises. Dos problemas da imigração à tortura moderna nos porões dos supermecados, o sofrimento imposto sugere que a crueldade poderia muito bem estar figurada ao lado da solidariedade, na forma de postura política no mundo, como ação concreta.

Sem poupar ideologias, a Cia Gare de Campinas adentra o texto curto Banheira Revolucionária, presente em Cartas de Amor a uma Princesa Chinesa, do romeno Matéi Visniec, para desbravar o cinismo proposto pelo autor.

FOTO: Jamil Kubruk

No palco do charmoso Theatro Avenida, em Espírito Santo do Pinhal, A composição de uma banheira e banquinhos como cenografia, seus diálogos sintéticos e diretos surgem como ambiente ideal para captar as abstrações que vão alimentar o quarteto de clowns da companhia. No elenco estão Alex Midian, Giu Darros, João Delluary e Paty Palaçon.

É preciso acrescentar que a Gare se apresenta no contexto da mostra de teatro do Programa de Qualificação em Artes, das Oficinas Culturais.

“Ouçam, o mundo está fudido.” A repetição emite um alerta e embarcar, não boiar, é um caminho para enxergar os bastidores desse mundo que se permite certa imaginação “inofensiva”.

Aqui, a linguagem do clown no trabalho da companhia é o que amplia as oportunidades de dissecar ideologias que, aparentemente, são tão adversas.

Reconhecer que o problema do mundo é a diferença entre ricos e pobres, por exemplo, torna-se risível quando o time propõe o fim dos ricos. Na inviabilidade do projeto, sugerir o fim dos pobres também faz dessa reunião patética uma pequena conferência à deriva.

Na cena, a companhia lança mão das diferenças construídas pelas pelas figuras como motor de ação. O aspecto inofensivo de imaginar um mundo ideal parece até atraente, revolucionário, como diz o título da peça.

Nesse sentido, a brincadeira de supor um mundo mais fraternal não foge do horror da realidade de suas soluções. A crueldade pede a conta e oferece um espelho. Quem deve pagar pelo futuro?

Impacto no mundo também se dá na ausência, na negligência. O silêncio faz derreter geleiras com a mesma força que a indignação salva cãezinhos dos testes farmacológicos. Nessa banheira volátil, o feminino é o eleito a pedra de esquina. Esquecida e rejeitada por todos.

De um olhar social, o texto de Visniec salta e apela para a filosofia, ao encarar o Ser como parte do entrave por esse mundo mais fraterno. Depois ignora a lógica e destila cinismo com as vovozinhas.

Nessas transições, o grupo acolhe interlúdios com a música clássica que nem sempre favorecem ritmo à encenação.

Mesmo assim, as personalidades ganham relevo na cena. Das brincadeiras e truques clownescos à narrativa de looping angustiante, o grupo encontra embocadura para debater o mundo à bordo de um ambiente rico aos tipos.

Há caminho para amplificar as reações que dão andamento para as próximas cenas. Talvez equilibrar o jogo que acontece apenas no palco e o que é realizado com o reconhecimento tácito da presença da plateia. Trata-se de uma maneira de multiplicar as interações, os acordos palco x palco e palco x plateia.

Tendências: