Christiane Jatahy semeia desilusão no campo devastado de ‘Ítaca – Nossa Odisseia I’

Christiane Jatahy semeia desilusão no campo devastado de ‘Ítaca – Nossa Odisseia I’

Leandro Nunes

07 Agosto 2018 | 16h03

Christiane Jatahy estreia seu ‘Ítaca – Nossa Odisseia I’ em uma São Paulo cuja cena anda dividida: De um lado, os amantes dos textos clássicos querem nos surpreender com declarações de que peças escritas nos séculos anteriores continuam sendo atuais. De outro, os recém-descobertos-novos-dramaturgos, que vivem uma nova onda de endeusamento da dramaturgia escrita, tentam encontrar um discurso que, no fim, é capaz de lutar e vencer com o que há de mais frágil, belo e precioso, que é a experiência teatral.

Claro que há mais lados. Mas é certo que os dois times, tão diferentes, se encontram na velha esquina de um teatro que nasce escrito e com pretensão de uma artesania que nem sempre leva em conta o perfil de uma pessoa comum que vai ao teatro no Brasil no século 21. É só ler e reler todas as indicações de todas as categorias de todos as premiações de teatro de Rio-SP. Não basta mais diferenciar o teatro do cinema, da Netflix, como se a presença de um intérprete fosse a coisa mais rara e valiosa para oferecer. Aliás, eleger ‘opositores’ contemporâneos da arte teatral já mostra certa vocação quixotesca.

De volta à Christiane Jatahy, seu ‘Ítaca – Nossa Odisseia I’ não esconde a filiação singular com a Floresta Que Anda, A Falta que Move, Corte Seco, Julia e E Se Elas Fossem Pra Moscou?. Em primeiro momento, a cena inicial soa como Déjà vu e é preciso reatar-se à memória antes de acompanhar a encenadora.

Foto: Elizabeth Carecchio

Ao olhar a Odisseia, um dos principais poemas épicos da Grécia Antiga, atribuídos a Homero, Christiane retrata a volta de Ulisses à casa, ao fim da guerra de Troia. Penélope, sua amada, o espera em Ítaca.

Na estrutura monumental, a plateia já começa como testemunha de narrativas distintas. Para além dessa simultaneidade, o teatro de Christiane parece um lugar contra a instauração de uma magnética e insistente ilusão que assombra seu palco, e, porque não o Teatro desde que veio ao mundo. Mesmo assim, não há negativa dessa ilusão, mas o reconhecimento de sua energia orbitante, como moscas em uma lâmpada. Já seus personagens, nesse fim da festa com open bar de água sinalizam a ebriedade está na consciência.

Ao limpar o terreno para libertá-los do reconhecimento da própria dimensão trágica ou algo que incentive uma tentativa de reinvenção/fuga do real, a encenadora oferece um campo inicialmente devastado para todos: elenco e plateia. O entendimento necessário é que a intenção de Ulisses é simples e direta. O sofrimento de Penélope e a dor de Calipso também estão claros. E o a poesia que surge não nascerá de um ponto de partida claro.

Em sua alquimia, ao isolar o humano da função das emoções, Christiane testa a existência de uma obra mundial, cujo imaginário repisado insiste em encaixar-se de modo ordenado pela própria estrutura do poema épico.

Não é correto dizer que ela o inverte porque em Ítaca – Nossa Odisseia I a dimensão desafia o próprio teatro. O que é um alívio para o espectador teatral de São Paulo.

Ao dividir a experiência em dois momentos, a montagem reaviva uma comunhão até mais ignorada que a espectador-obra: Christiane não se contenta em desfilar a transparência desiludida de seus personagens. Sem que haja horror na cena que sirva à velha purgação, ela ainda oferece alternativa ao dispor uma plateia diante da outra. Com seus sujeitos planos e opacos do outro lado da cena, o que resta é conceber um estranho espelho com molduras semelhantes, mas de reflexo irrepetível.

O forte contato da cena com o cinema aglutina alguma ilusão que ainda possa persistir, não como resíduo, mas em um manejo que adorna o espetáculo uma beleza crônica. Sensações apenas descontinuadas pelo calor excessivo no ambiente que abriga a peça no Sesc Consolação. Ítaca – Nossa Odisseia I é emancipação da ilusão que o teatro do século 21 precisa para continuar existindo.

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