‘Caranguejo Overdrive’ jogava caxangá, tira, põe, deixa ficar

‘Caranguejo Overdrive’ jogava caxangá, tira, põe, deixa ficar

Leandro Nunes

19 de fevereiro de 2016 | 16h33

– Ativo ou passivo?

– Versátil!

Caranguejo Overdrive marca a estreia da companhia de Marco André Nunes e Pedro Kosovski em São Paulo. Um choque de monstro, como dito na dramaturgia tecida entre o campo de batalha da Guerra do Paraguai e o extinto Canal do Mangue, no Rio de Janeiro. Está tudo explicado na entrevista que a dupla deu para o Caderno 2.

Antes de continuar, uma pausa, o blog precisa fazer uma confissão: São Paulo tem uma forma bem peculiar de reagir a alguns tipos de espetáculos, no que diz respeito a presença de animais em cena. Vide o episódio da peça da espanhola Angélica Liddell com um cavalo, há dois anos na Mostra Internacional de Teatro. Outro episódio, em uma escola de teatro da cidade, os alunos protestaram o fato de um professor contracenar com um peixe. Bem, durante a conversa com o diretor e o dramaturgo da companhia, preferi não contar nada disso. Não queria estragar a estreia de ninguém. Naquela noite, não vi manifestações de protesto. E fica dito: a companhia tem autorização do Ibama. 

Vamos lá!

O espetáculo tensiona elementos do texto, do corpo do atores e dos músicos para cavar a loucura do antigo catador de caranguejo Cosme que volta torto da guerra após testemunhar os horrores do combate. Ao texto cumpre a função de provocar o que é do imaginário e destinado ao registro temporal. Ao corpo cabe fundar a teatralidade do evento já que traz movimentos alquebrados, em estado de mutação. Aqui a loucura do homem é presente e seu passado é pretexto, brutal e doloroso.

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Um trio de caxangás. Um deles vai passeia pelo mapa do Rio. Foto: João Julio Mello/Divulgação

Mas Cosme não é um. O corpo de Cosme se espalha, articulado pelo elenco masculino. Com a missão clara de não embotar corpos e sobrepor signos semelhantes, os atores se dividem em “subespécies” performáticas. Ao prosseguirem junto ao ascendente em comum, os corpos encaminham narrativas próprias, ativadas pelo explosão branca da guerra. O homem Cosme, então, é virtualmente redimensionado, momento no qual encontra interface com a história do Rio de Janeiro, como cidadão e brasileiro. O teatro político transmitido pela via estética.

Quanto aos blocos de monólogos, o texto evocado pela colombiana Carolina Virguez tem o difícil papel de desmontar armadilhas de expectativa. O aparente e visceral resumo da história do Brasil é um deles. A mensagem encontra identificação com o público ao narrar episódios da irônica história política do Brasil. Simultaneamente, ao emitir o texto em um portunhol consciente, intenta desgastar a atenção desprendida da plateia. É um desmonte da teoria emissor-mensagem-código-meio-receptor. Assim, o riso que surge tímido pede autorização para existir, completando o ciclo em uma função fática, ou feedback, que realimenta o sistema. Ao fim, Aquela Cia. crê nesses ciclos e faz jorrar os acontecimentos mais recentes do Brasil pelo cano construído por seu discurso.

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Caranguejo Overdrive planeja em sua dramaturgia subterrânea, a percepção das superfícies. Por vezes, a encenação ameaça descarrilar, tanto pela característica do texto, quanto pelo desordenada construção narrativa que toca as bordas, entretanto, mais parece ser fruto da responsável direção que enfraquece as fronteiras da cena, a fim de chamar o olhar para fora dela. Mais uma vez, vida longa ao mangue.

CARANGUEJO OVERDRIVE. Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195, tel. 3095-9400. 3ª, 4ª e 5ª, às 21h. R$ 7,50/R$ 25. Até 15/3.

 

 

 

 

 

 

 

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