‘Ça Ira’ cava toca subterrânea para seus ratos franceses

‘Ça Ira’ cava toca subterrânea para seus ratos franceses

Leandro Nunes

09 de março de 2016 | 15h18

A compreensão da História não se faz por apenas um ponto de vista. Ainda que seja este o aprendizado escolar, as coisas e pessoas vão ganhando outros nome à medida em que se avança em conhecer os múltiplos atores que participaram (ou não) das grandes transformações (ou não, de novo) ocorridas no mundo. A montagem de Ça Ira (Vai Dar Certo) do francês Jöel Pommerat pretende, por um enquadramento atual, retoma os acontecimentos que engrossaram o caldo para que a dita Revolução Francesa (1789-1799) ebulisse.

O diretor aposta em um formato de teatro-assembleia, que coloca atores e não atores espalhados pelo palco e plateia e com isso dispõe-se a escancarar as portas que levam aos bastidores do poder francês. O palco passa a servir, então, de registro sintomático do que está acontecendo no país. A fúria do povo é o elemento externo que revela as contradições e absurdos dos parlamentares que lutam para perpetuar suas posições.

Se esse cozimento de tensões demorou anos para concretizar a derrubada da monarquia absolutista, no espetáculo isso dura pouco mais de quatro horas. O procedimento instaurado por Pommerat permite tecer a narrativa feroz com a qual o diretor quer problematizar. No calor do momento, os poderosos gemem, em suas exclamações contraditórias e por vezes revoltante.

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‘Ça Ira’: Uma assembleia de absurdos

De certa forma, tudo poderia ocorrer aqui no Brasil. Seria muito bom grado sentarmos em uma poltrona de teatro e adentrarmos nos interiores obscuros nos quais são planejados o futuro do Brasil. Exemplos e correspondências da peça de Pommerat não faltam, como o parlamentar corrupto envolvido em desvio de alimentos. Seu destino é ser despedaçado por populares.

A religião talvez possua o mais anacrônico discurso, que incorre na defesa da isenção fiscal de templos religioso e no envolvimento da fies nos mandos burocráticos. De maneira paradoxal e palpável é possível perceber vozes soltas no ar se alinharem duramente diante da realidade brasileira.

Mais um alento surge diante das vozes femininas. A impressão é de que os períodos de guerra sempre abafam o relato lúcido da figura masculina, dado o seu envolvimento na batalha. Na peça, polos opostos são encontrados no espetáculo atribuídos ao olhar feminino, no qual as mulheres encabeçam discursos em defesa de seus ideais. Isso vale para a rainha, as parlamentares e as representantes do povo. Aos homem e aos ratos, cabe reagir e baixar a cabeça, como o covarde Luis XVI.

Ao fim, fica tudo certo, nada resolvido. O rumor do futuro pedia ainda mais sangue e reviravoltas. Talvez as decapitações fiquem para um Ça Ira 2 ou um Pas Ça Ira.

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