‘Babilônia’ busca hackear caos mundial frente a um vírus chamado comunicação

‘Babilônia’ busca hackear caos mundial frente a um vírus chamado comunicação

Leandro Nunes

15 de fevereiro de 2019 | 15h31

A história de Babel talvez seja o mais antigo preditivo do que seria tarde seria considerado como globalização. A alegoria de uma torre construída para acessar os céus, teve seu objetivo frustrado e sua equipe desmobilizada quando suas línguas se confundiram.

Ao deixar de comunicar-se entre si, o grupo ganha nova vocação. Buscar entre quem se entenda, uma nova forma de organização, agora para longe dali, em direção a uma nova vida entre comuns. Desse modo, a confusão foi bem-vinda: o que perdeu-se na unidade, conquistou-se em território.

FOTO: Ding Musa

Nada disso parece ser mais problema atual, quando o real mal-estar surge em acompanhar os desmandos do país que em pouco mais de 140 caracteres no Twitter torna obsoleto o Diário Oficial.

A globalização configurada, principalmente, pelo aparato tecnológico, o uso de satélites e a evolução dos meios de comunicação, produziu uma série de desafios que agora parecem fustigar fronteiras e identidades.

Babilônia – Sem Fronteiras estreia como ambiciosa produção direcionada, primeiro, a reatar tempo e espaço, sendo encenada simultaneamente em São Paulo (Teatro Anchieta), Nova York (Harlem Stage), Londres (Bush Theatre) e Joanesburgo ( Market Theatre Lab).

Na estreia, a sensação da plateia é a fascinação pela tecnologia, ao ver a si, ladeada por outras três audiências que se acomodavam nas poltronas.

Transmissão que a Copa do Mundo faz, e faz bem há anos, para um projeto de teatro seria quase um convite ao insucesso.

Organizada em blocos, suas transições lembram as transmissões jornalísticas ao vivo, que vão de um ao outro lado do país em instantes.

Em cada parada, uma cena dispõe seu mal estar diante da Babilônia-mundo. Seja pela alegoria de Joanesburgo, pelas danças de Londres ou pela música de Nova York.

Em São Paulo, na direção de Pedro Granato, do Pequeno Ato, sustenta-se o teatro declaratório, documental, com Karina Buhr e Gloire Ilonde. A dupla relembra histórias de suas origens, de suas família, do lugar de onde vieram e do choque com outras culturas.

Fechados em suas salas, as quatro teatros avançam quando discute arquitetura, elegendo um edifício nacional, cuja história ecoa questões sociais, econômicas e culturais.

De 11 de setembro ao Largo da Paiçandu, relembrar tragédias revela o mal-estar deixado e o ruído que nos desconecta da humanidade, capaz de minar toda inovação tecnológica.

Em Londres, fala-se dos efeitos de instabilidade do Brexit e em Joanesburgo da insegurança de se atravessar fronteiras, revirando o mito do cidadão do mundo, agora transformado em um cidadão de lugar nenhum.

A convergência é talvez, o maior ganho de Babilônia. Com um funcionamento nada simples, levando em conta os diferentes fusos dos quatro países é um mérito das equipes.

O projeto oxigena a nossa cena, lançando mão de iniciativas que mobilizam artistas de vários pontos do globo em resultados que desafiam tanto a forma de estruturar a cena como de frui-la, por parte da plateia.

Quanto aos assuntos, Babilônia revela a vocação de ser mais um painel mundial, organizado por suas produções ao eleger temas nacionais e dividi-los com suas audiências.

Não seria ingênuo perder uma oportunidade de estar em quatro lugares ao mesmo tempo. Isso se expressa na consciente escolha de citar tópicos como as falas do presidente do Brasil e sua opinião sobre imigrantes, bem como a insegurança causada por Theresa May no Reino Unido, diante do ideal de independência ameaçado por isolamento.

No entanto, a própria seleção das manchetes por parte dos quatro teatros parece prescindir que as quatro audiências não são nutridas pela mesma rede que conecta os quatro países com o mundo.

Há uma sensação de que a dramaturgia das quatro praças é analógica demais para ultrapassar os poderosos cabos de fibra ótica que sustentam o fornecimento de imagem e som nos diferentes ambientes.

Uma busca no Google, por exemplo nos garantiria maior panorama e diversidade de pontos de vista sobre Brexit, em uma rápida leitura. Foi o mesmo Google e das redes sociais que garantiu projeção nacional das falas do presidente Bolsonaro, durante as eleições.

Evocar seus poderosos nomes, nem sempre garante o avanço do debate, nem mesmo seu início, apenas delimita um território. Isso porque esses nomes já são evocados diariamente nas outras esferas sociais dessas audiências, analógicas e digitais, da mesa do bar à balada, do twitter ao Whatsapp.

Esse debate nominal, por outro lado, poderia ser dispensando diante dos ruídos de transmissão com grande potencial estético, como os efeitos do delay,  falhas de transmissão e glitches.

Nesse sentido, mais que temas, a comunicação também se faz veículo de mal-estar quando gera ruído e falha, a história do “meio também é mensagem” expressa na mensagem que não chega, no email não enviado, ou que foi para o spam, na mensagem pública deletado, o ruído como comunicação mais profunda, e menos como síntese de óbvia discordância.

São condições da rede que assombram o mundo por deixar rastros fantasmagóricos. Elementos de ausência imanente na matriz, que o teatro já demonstrou ter capacidade de encarar, seja como máscara ou como discurso.

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Pedro Granato

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