As exceções que fazem o corpo de ‘Anatomia do Fauno’

As exceções que fazem o corpo de ‘Anatomia do Fauno’

Leandro Nunes

19 de maio de 2016 | 10h30

Leandro Nunes

Os mitos desprendem conceitos, tal qual um pedaço de alimento tem suas características físico-químicas alteradas quando exposto em determinadas condições. Outro aspecto do mito é que ele já vem, antes, encaminhado do processo que o alçou ao patamar de narrativa fantástica e simbólica, atrelada a verve humana. Assim, qualquer mito que possa ser selecionado e retomado na criação artística contemporânea concentra essas si duas composições: DNA, condição básica de sua identificação, e o fenótipo, a manifestação de características visíveis e detectáveis.

Freud, por exemplo, retomou, em muitos de seus complexos, o desenvolvimento de sistemas de pensamentos reprimidos e a manifestação das emoções concretizadas em comportamentos considerados patológicos. Mais tarde, Yung viria para relativizar o aprisionamento desses sistema e proporia uma outra interpretação.

Assim, à luz de Anatomia do Fauno, dirigido por Marcelo D’Avilla e Marcelo Denny, testa-se a concepção do mito enquanto composição mínima do homoerotismo, e sua manifestação visível e detectável, a ação precedida do ser. E ele está lá: o ser mitológico desenterrado, trazido das catacumbas à contemporaneidade. Interessante pensar que a origem do termo pode ser associada à “destino”, “profeta” e “favorável”. Como figura professoral, ao Fauno caberia as mais altas posições, entretanto seu retorno é logo atingido pela velocidade do tempo presente. Tecnologia, HIV, homofobia e solidão não permitem que o ser híbrido recém-chegado se adeque novo fuso horário. O mito é testado e sugado para o tubo de ensaio falocrático. Isso pode ser compreendido enquanto narrativa, mas por vezes se mantém nublado em qualidade de imagem, pois o corpo do performer advém descomposto, e simula grandeza e sexualidade-sagrada que deveria ultrapassar o corpo. Simula, não vibra, nem é imanente, tampouco visceral ou sedutor. Os degraus parecem altos demais.

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Corpo fugaz

Mas a performance individual não consegue influenciar o tom dos demais corpos. O que é bom. O que vem a seguir sobrevoa o íntimo de uma juventude gay, irretocável de sua consciência e mergulhada em uma solidão pública. Tais relações encontram-se aconchegadas no anonimato dos aplicativos de encontros e nos corredores escuros de festas. Tal qual a ágil tecnologia, o gozo equipara seu ritmo à habitual efemeridade dos pares. Indivíduos aqui, contestáveis, já que o espetáculo deseja problematizar o corpo masculino sem rosto. Onde estão os gays gordos e obesos? Onde estão os gays velhos? Onde estão gays deficientes físicos? É certo de que a grande maioria dos abdomens presentes no palco não foram construídos nas academias, o que pode questionar o imaginário do já fadado gay malhado. Por outro lado, as cinturas finas presentes no palco podem demonstrar um particular protesto velado a esse “corpo perfeito”, ou um protesto às avessas na preguiça de malhar?

O tema do HIV, amplamente discutido na arte, tem como principal inimigo a evocação de arquétipos. O terror que envolveu os anos 1980 não aterrissou a sociedade contemporânea da mesma maneira, já que apesar das campanhas, o número de contágios ainda aumenta no Brasil. No espetáculo, os cenários são dos mais prováveis: seres horrendos invadem o contexto de sexo anônimo em banheiros públicos, baladas e dark room. Mas o que dizer de indivíduos que contraem HIV no leito de uma relacionamento supostamente monogâmico? Esse comportamento (monogamia) não se enquadra na sexualidade contemporânea? Não há problema ao se escolher determinado universo para reflexão – é sabido que o estilo de vida de um gay de 19 anos, morador da capital pode ser diferente de um gay de 23, do interior. Sem citar grandes diferenças de idade. Até então, há coerência. O desafio, assim, se faz em como criar e trabalhar com os episódios que fogem para fora da curva. Como desmassificar um corpo que surge no palco tão consolidado. Como criar quadros singulares em um numeroso elenco? Aliás, se o recorte se justifica pela atração sexual entre iguais, como instaurar as individualidades? O grupo já escolheu a regra, explorem as exceções!

A metade da ausência

A metade da ausência

No fim, o que poderia ser utopia, ganha a presença essencial de um novo elemento, que encerra a psicologia desse corpo amplificado. Entretanto, para surpresa, a figura perde protagonismo tão logo subiu ao palco. Engolida pela massa, fica a sensação de coadjuvante simbólica e concreta, sem que haja tempo de fruição pela plateia. Ainda assim, o momento de desbunde aparece em libertação do próprio corpo, que flui imerso na coletividade tão rara da metrópole. A dança, as vozes e os movimentos manifestam duplo regozijo, o rosto dos performers brilha ainda antes da purpurina. A plateia ri e seu une aos gritos de “Fora Temer!”.