‘Arraigada’ refaz o caminho da memória pelas raízes do afeto

‘Arraigada’ refaz o caminho da memória pelas raízes do afeto

Leandro Nunes

08 Dezembro 2018 | 16h12

Para quem vive em São Paulo, não é difícil esquecer que o tamanho do estado guarda consigo uma cena artística quase impossível de se perceber com clareza.

O circuito cultural estabelecido na capital – tão concorrido e almejado – por vezes apenas se repete entre nomes, temas, formas, modos de criação e interlocução, assinalando um comportamento criativo que já é característico da cidade.

Assistir teatro profissional feito em São Paulo é como frequentar um condomínio: suas ruas e esquinas apresentam variações externas, placas como nomes, mas todas se estabelecem em relação a um núcleo. No fim, sempre levarão à mesma portaria.

Nada disso importa tanto quando os quilômetros se afastam da capital e já não há muros e cercas para domesticar as obras e seus artistas. No caso das artes cênicas, a distância do principal centro econômico e de fomento às artes acaba configurando modos de organização e trabalho que, se não são novos ou únicos, necessariamente precisam ser desbravados, e isso deve ser feito ao vivo.

Um caminho foi apontado pelo espetáculo Arraigada – A Saga Popular de Uma Heroína, do Coletivo Peneira, de Piracicaba. A montagem faz parte da mostra Cena Interior, uma seleção de espetáculos de dança e teatro do interior paulista organizado pelo Programa de Qualificação em Artes, o antigo projeto Ademar Guerra, e apresentado na Oficina Oswald de Andrade.

Foto: Gabriel Campos

O trabalho solo investiga a história de Druvalina, mas não possui seu rosto como ponto de contato. O ator Giovani Bruno escolhe tocar a plateia pelo estômago: já de início ele serve uma refeição que sua mãe preparava para ele.

Os passos a seguir rodeiam a vida de sua mãe e família, ora falando de maternidade, ora avistando o mapa de um Brasil interior.

Por meio de uma dramaturgia que se embaralha, a peça desenvolve uma narrativa dinâmica que passeia pelas décadas e também pelo palco. Os diversos objetos organizados no quatro cantos do espaço cênico antecipam relações e poéticas que vão sendo apresentadas à plateia, sem pressa. Um grande vestido azul, semelhante ao de deusa das águas se impõe em um lado, instrumentos musicais, do outro, e uma pipa se faz de portal logo na entrada.

Assumir, portanto, o aspecto lúdico da narrativa é um compromisso primeiro a ser aceito pelo público. Ali a imaginação reflui entre meias verdades e poesia.

Cabe ao ator incorporar as vozes e vidas femininas às quais se dispôs narrar. Quando surgem isoladas, Giovani é capaz de evocá-las em cena. Ele faz surgir o aspecto cômico de uma mulher simples que reclama que o filho tem levado todos objetos de casa para utilizar no teatro. Entretanto nos diálogos, como na cena da mãe e da mulher com o chapéu de bacia, falta precisão ao alternar entre uma e outra. Sem as caracterizações, que contribuem à cena, não seria tão simples diferenciar as personagens.

Nos momentos dramáticos, como a cena da chegada do ano novo, a ironia e o sarcasmo são conquistas dramatúrgicas e de direção de Mariana Defendi, que reencaminham a força do espetáculo. O personagem do irmão surge tão interessante quanto a mãe protagonista e a violência construída no imaginário, com a plateia, ultrapassa o dado real. Ao evocar os episódios de bebedeira do irmão, o ator não poupa a plateia de revivê-los como num segredo recém compartilhado. A surpresa dos conflitos não deixa de surgir sem horror. O sentimento do jovem diante do episódio à época tem o mesmo efeito na plateia: a impotência.

No conjunto, a musicalidade empresta um ritmo que partilha força com a dramaturgia. A força do verso reembaralha as rotas da história, ao fim de cada cena mesmo, já que o afeto exposto não tem mais pontos de remenda. Um afeto que não tem começo, nem fim.

Arraigada tem bastante ambição ao considerar o feminino em seu mais urgente aspecto político, mirando uma região onde o feminismo não é verbo falado, institucionalizado, mas uma luta diária que tem endereço, cor e raiz, tal qual a vida de todo herói.

O debate da negritude e da identidade se mistura ao que é o próprio Brasil, e evoca um tipo de mitologia particular, um conto que se conta antes de dormir, em um quarto aconchegante para luz e sombras. Porque todo herói só é herói se for de carne e osso.

A mostra Cena Interior termina neste sábado, 8, lá na Oficina Oswald de Andrade.