Ao repisar ‘Os Sete Gatinhos’, grupo Caboclo Ventura sustenta vigor com jovem intérprete na peça de Nelson Rodrigues

Ao repisar ‘Os Sete Gatinhos’, grupo Caboclo Ventura sustenta vigor com jovem intérprete na peça de Nelson Rodrigues

Leandro Nunes

17 de outubro de 2019 | 13h35

Não são simples os caminhos para se estudar a obra de Nelson Rodrigues. O grande dramaturgo pernambucano fez do Rio de Janeiro cenário e tema para as peças nacionais mais montadas no País.

Ao acolher a leitura de sua produção se faz necessário olhar atento ao passado, de montagens a encenadores, de críticos a especialistas. Por sorte, temos um artista nacional que se dedicou não apenas a pensar a sociedade brasileira, mas também desprezar a realidade.

FOTO: Jamil Kubruk

Um nome que surge tão próximo é o de Antunes Filho, que estreou Nelson Rodrigues, o Eterno Retorno, em 1981. Uma pena que o dramaturgo não teve a chance de apreciar a montagem que condensava Álbum de Família, Beijo no Asfalto, Toda Nudez Será Castigada e Os Sete Gatinhos. Tarefa difícil.

Ao recusar se apoiar em uma condução de comédias de costumes, que muito influenciava o tom das montagens do texto naquela época, Antunes foi mais quântico ao ponto de alcançar um núcleo nunca antes acessado.

Em Os Sete Gatinhos, por exemplo, o caminho posto só revelava a peça como um manual de perversidades sexuais, no máximo o terror de ressentimento misturado à luxúria, ao libidinoso, tão odiado e celebrado pela religião. Com o tempo, as peças de Rodrigues deixaram de ser consideradas filhas órfãos do teatro mundial, demonstrando concentrar em sua identidade forte relação com a tradição teatral erudita. O crítico Sábato Magaldi se dedicou a destrancar essa fechadura no livro Teatro de Obsessão.

Nesse sentido, o que Antunes fez foi despir os textos de uma abordagem voltada à crítica de costumes e mesmo um retrato farsesco da sociedade. Seu intuito sacralizou a criação de Rodrigues no gênero trágico.

É inegável que a persona jornalística do pernambucano – carioca de coração – e suas falas debochadas em entrevistas e no jornal criavam ruídos diante de sua extensa e autônoma produção dramatúrgica. Montar o sonho cruel de Vestido de Noiva, por exemplo, tendo em mente o debochado comunicador, é se perder no fosso entre criador e criatura.

Talvez este seja o desafio de Os Sete Gatinhos, do grupo Caboclo Ventura, de Santa Gertrudes, apresentado como um espetáculo em processo de criação, durante a mostra de teatro Qualificação em Artes, da Poiesis, na cidade de Espírito Santo do Pinhal. Ao se apoiar na estética malandra e sensual típica de um Rio folclórico, a montagem alcança em sua pesquisa estética menos uma ampliação das figuras do que libertação. Apesar de ser uma partícula da peça, a personagem de Silene, a criança, sustenta o início da trama no registro apontado pela direção, o que ainda não oferece espaço para o elenco. São eles: Ana Freitas, Gabriel Reis, Gabriela Amaral, Gustavo Raizer, Laura Gasparini, Leonardo Gasparini, Letícia Vitorino, Priscila Silmo, Ryan Siqueira, Mon Rá Bortolato.

Quando Antunes encara o trágico na obra de Rodrigues, não há barreiras para o aspecto psicológico das personagens. A sensualidade que nos parece tão natural e civilizada nos corpos tropicais comunga com a repressão religiosa sem, necessariamente, se encerrar, como um ciclo que se retroalimenta.

Talvez o ambiente político atual tenha nos convencido de que liberdade e repressão nasceram para se anular resultando em certa alienação ou em esgotamento. Mesmo assim, há outras dimensões em jogo, muitas vezes invisíveis.

A criança que é acusada de matar uma gata prenha aponta para a condição da família, mas isso favorece a dramaturgia, portanto um posicionamento textual do autor. Ao encená-lo, é preciso deslocar os fundamentos do que entendemos como família, por exemplo, e o risco de sua manutenção diante do patriarcado, num claro aceno ao destino de Édipo. Ao recusar o registro local do autor, encontramos símbolos e arquétipos mais consolidados na filosofia, na psicologia e nas artes.

A chance do Brasil produzir um autor tão fascinante prova que o teatro pode e consegue revisitar sem medo a obra de Nelson Rodrigues. Celebrar sua dramaturgia e as montagens de suas peças nos é sempre um risco de querer inventar a roda. Mesmo assim, Antunes insinuou que pode haver outras trilhas que apenas deslizar para os lados. Quem sabe mais para cima, ou mais para baixo.

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