‘Amarelo Distante’ e o xale roxo que envolve as bad trips

‘Amarelo Distante’ e o xale roxo que envolve as bad trips

Leandro Nunes

06 de abril de 2016 | 20h30

O céu cinza de Londres é fértil para o surgimento de toda melancolia e um autoexílio na cidade parece ser a escolha para um duplo castigo.

Um certo labirinto existencial marca os escritos de Caio Fernando Abreu, como os descritos em Lixo e Purpurina e Anotações Sobre Um Amor Urbano. Estes compõe a montagem de Amarelo Distante, com Mateus Monteiro, e direção de Kiko Rieser. Para tanta emoção represada na produção de Abreu, basta livrar os olhos pelas palavras a fim de libertar o fluxo que logo se identifica aos dilemas passados qualquer pessoa.

Aqui, o ator demanda encarnar a confusão do escritor nos anos 1970, a vontade de morrer misturada com a vontade de voltar para casa, a situação de sobrevivência deplorável enquanto minera a poesia grudada na dura realidade.

Desilusão e voz

Desilusão e voz

A encenação impõe um convite de percepção para os ouvidos. O corpo, por vezes nublado, coloca a voz como ferramenta principal, que desata as emoções, situa tempo e espaço, conversa consigo, com o outro, deixa livre as nascentes do pensamento.

O desafio então cobra seu preço, tem-se no mesmo plano as livres subjetividades de um verso contra a precisão temporal característica de um diário. Desses polos narrativos –  exato e lirismo – há uma paleta de nuances e variações que pedem mais articulação vocal. Algumas são oferecidas em abundância, no geral a descrença e desilusão rotineiras do escritor, outros em escassez. Entretanto não se trata de uma limitação da voz, ou de alcance, mas de compreender as características, possibilidades e aplicações da própria ferramenta. Aquele amarelo distante, escondido.

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