Abertura da MITsp tem discurso antenado, homenagem à Marielle Franco, mas cadê a diversidade?

Abertura da MITsp tem discurso antenado, homenagem à Marielle Franco, mas cadê a diversidade?

Leandro Nunes

15 de março de 2019 | 17h38

Na semana que a morte de Marielle Franco completou um ano, o assassinato da vereadora carioca foi lembrado na abertura da 6ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, ontem, 14, no Auditório do Ibirapuera.

O caso do ataque a escola Raul Brasil, no dia 13, também puxou as críticas à violência e flexibilização do porte de armas. “Nossas mãos não foram feitas para portar armas”, disse o performer Wagner Schwartz. O artista está na programação da mostra com o espetáculo A Boba, inspirado no quadro de Anita Malfatti em que o artista dá uma resposta à perseguição que sofreu com a obra La Bête.

‘A Repetição’ Foto: Hubert Amiel

O cocurador e produtor da MITsp, Guilherme Marques, lembrou, na cerimônia, que a capital é principal polo de produção das artes cênicas. “São Paulo não pode retroceder às forças reacionárias e obscurantistas.”

A seguir, foi vez do diretor do Itaú Cultural, Eduardo Saron, que criticou a flexibilização do porte de armas e defendeu que a Cultura é a solução. “A arte é a melhor forma de empoderamento.”

Com caráter bastante engajado, a sexta edição da MITsp traz espetáculos que investigam violências de cunho homofóbico, pedofilia e os efeitos da colonização na África por países europeus. A peça A Repetição – História (s) do Teatro I, do suíço Milo Rau, abriu a programação ao relembra um caso de assassinato de um rapaz gay na cidade de Liège, na Bélgica.

O aspecto mais radical da narrar um crime bárbaro no palco foi reforçado pelo diretor do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda. “O teatro tem a capacidade de por o dedo na ferida, de provocar o debate e também despertar o encantamento pela beleza. Uma ação cultural é mais eficiente que a distribuição de armas”, disse.

Para o secretário de Cultura e Economia Criativa do Estado, Sergio Sá Leitão, a cultura em São Paulo possui uma importância estratégica para o País. “São Paulo representa 50% do PIB Cultural do País”, afirmou.

Mais críticas à violência e porte de armas ficaram no discurso de Alê Youssef, o novo secretário municipal de Cultura e Economia Criativa. Ao declarar que a arte e os artistas estão sendo perseguidos no país, ele desafia: “Para quem ataca a Cultura vai ter que enfrente as coisas belas e fortes que vamos criar.”

Além disso, o secretário afirmou que vai destravar o Fomento ao Teatro, edital que viabiliza a criação de grupos teatrais de pesquisa. Desde o ano, o programa estava suspenso após ter regras modificadas pelo então secretário André Sturm.

Ao fim de discursos antenados com o acontecimento do país, a MITsp esqueceu-se de que a produção cultural e artística da principal capital cultural da América Latina também se faz com mulheres e negros.

Tema tão caro e debatido em festas e premiações importantes como Oscar, a presença de minorias e suas palavras reforçam na prática – e menos nos discursos institucionais e nas fotos da equipe projetadas no telão – o compromisso de uma mostra de teatro que se considera plural, feita por todas e todos, e para todas e todos. Se a luta é contra o retrocesso, que a MITsp esteja no front dessa luta.

A mostra vai até 24 de março com espetáculos da Suíça, Reino Unido, Itália, Congo, Chile, França e Brasil.

A 7ª edição da MITsp foi confirmada e deve acontecer de 5 a 14 de março de 2020.

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