A viagem portátil pelo território de ‘projeto brasil’

A viagem portátil pelo território de ‘projeto brasil’

Leandro Nunes

07 Julho 2016 | 17h21

Leandro Nunes

Os anos passam e a figura do indígena fica parecendo, cada vez mais, um viajante do tempo que veio do futuro desembarcar nos nossos tempos difíceis. Montado em uma estrela colorida e brilhante, esse profeta natural e cibernético é o mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias. E ele tem yottabytes infinitos de informações para nos transferir:

Tempo de download: 516 anos, 25 semanas e 17 horas…

“Virá que eu vi!”, a voz de Maria Bethânia desata o nó temporal em Um Índio. “Apaixonadamente como Peri, virá que eu vi!”

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O medo de partir não deveria existir já que origem e destino não configuram a identidade do viajante. Antes, esses pontos podem muito bem se repousar encaixados sobre a linha do tempo, como passado e futuro. O que está no meio, no agora, é a coragem de atravessar territórios. O tempo presente é o território. E é nessa extensão inflamada que Marcio Abreu e sua companhia brasileira escolhem pisar no espetáculo projeto brasil.

Muitos beijos com Nadja Naira e Rodrigo Bolzan

Muitos beijos com Nadja Naira e Rodrigo Bolzan

No Brasil, não há nada mais inseguro e impermanente que o território. As fronteiras geográficas que desenham o país continental só perdem para as complexas margens de seu interior. Seja entre as cinco regiões, na xenofobia do Sul e Sudeste com o País, no shopping e na favela, no grande latifúndio e na aldeia indígena. A fronteira é a propriedade particular do medo, alertada por placas de ódio, pela linguagem, sempre violenta e autoritária. Linguagem e território, surgem, então, como intervalos nebulosos, instâncias afetadas por estigmas. Um micronacionalismo indigno.

Em projeto brasil, a companhia brasileira cria o roteiro dessa incursão no ritmo do corpo. No abrigo das nossas margens, a democracia se move, do Norte ao Sul. Nós escolhemos viver no território da democracia. Escolhemos? “O que significa isso?”, questionaria o filósofo Jacques Rancière.

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Gestos de Giovana Soar

No espetáculo, o mosaico de cenas não promete unidade, nem destino. As fronteiras já sucumbiram desde o início, com bombas de beijos. O que vem a seguir vibra para localizar o presente inteiro. Com o suporte de declarações de políticos e pensadores, a montagem tensiona a comunhão recém obtida, oferecendo pontos de apoio diante da performance dos atores. Mas o corpo é bússola e mapa por excelência, capaz de captar o instante precário e passageiro. Quem disse que o agora existe? O que surge se revela desmantelado, configurado para levantar e cair.

E quando o corpo é privado de circular pelo território, outras formas de linguagem se organizam para alcançar a extensão além. O que é defender o casamento entre pessoas do mesmo sexto senão a réplica contra a privação do corpo? O que é um beijo, um abraço, um aplauso senão a réplica contra a truculência. É o gesto apaixonado de Giovana Soar que antecipa esse Peri vir a ser. Exótico, talvez seja esse o espírito do tempo presente.