‘A Tropa’ reafirma a singularidade do teatro carioca

‘A Tropa’ reafirma a singularidade do teatro carioca

Leandro Nunes

11 de julho de 2017 | 20h48

Não há como não sentir um cheiro da brisa do mar que acompanha algumas dramaturgias gestadas no Rio de Janeiro.

Diante de um quadro econômico na lama e de um governo que deixou o Estado cheio de dívidas, sem falar nos teatros que fecharam nos últimos meses, boas produções tem florescido nesse caos. A última memorável foi Caranguejo Overdrive, da Aquela Cia, que reúne um teatro performado sobre o mangue histórico carioca e desdobramentos na Guerra do Paraguai.

Antes dela, Conselho de Classe, da Cia. dos Atores, anteviu a crise brasileira na educação e já parecia sinalizar um movimento que explodiu, no ano passado, na onda de ocupação feita por alunos em suas escolas pelo Brasil.

Dessa vez, o que condecora São Paulo com bons ventos vem protagonizado por Otavio Augusto, no espetáculo A Tropa, que marca os 50 anos de carreira do ator.

Foto: Elisa Mendes

Por vezes, o chamariz “Festeja ___ anos de carreira” lança dúvidas se a produção é boa o bastante para não se justificar nesse marketing. Em geral, é cheiro de cilada. No entanto, a dramaturgia de Gustavo Pinheiro e a performance de Augusto carrega grandes surpresas ao longo da peça, embora não maiores que a ausência de indicação nos prêmios cariocas e paulistas.

Ainda não é possível afirmar que A Tropa seja só “teatro.” A cara da dramaturgia e seu roteiro poderia cair bem numa boa produção audiovisual, um bom episódio na programação televisiva. Os closes que a iluminação oferece para suspender as memórias dos filhos do general são flashbacks prontos que no palco servem para ativar a memória dos personagens e da plateia.

Por assim dizer, as combinações quase canhestras são o que criam situações de humor, cheiro de farsa que brota dentro de uma família sufocada. As justificativas que vêm aos poucos, parecem ter sido atomizadas com a morte recente da mãe. O mundo que não para, força os quatro marmanjos e o pai prosseguirem.

Assim, ao suspender a presença feminina marcada de sensibilidade e empatia, o quinteto se torna selvagem, irracional e cruel. É como furtar metade do cérebro de um sujeito. Isso não quer dizer que lhes falte memória. A trama se alimenta disso, mas o estado manco criado pela dramaturgia acopla as memórias em lugares doloridos que quando são compartilhados saem como vômitos e ataques.

Diante disso, cada filho cobra coerência moral e social do outro. O pai não é diferente. Carregado de contradições, o patriarca oferece a cara para ser odiado. Nessa sociedade seu lugar seria no time dos conservadores, o que não significa que ele seja chapado e golpista, só que o dramaturgo e a direção consideram legítimo que personagens possam falar por si mesmos.

De outro lado, o estilo de vida de cada filho imprime facetas político e sociais variadas. Não é novidade que somos tão diferentes dos nossos irmãos, mesmo os que foram criados sob o mesmo teto. Sobre isso, alguém já disse que irmãos são estranhos de mesmo sangue.

Aqui, os ataques da dramaturgia despontam parte da história de cada filho, como eles enxergam a própria experiência e a capacidade de relativar o outro. Mergulhados nas emoções, a malícia despejada por figuras tão reais é capaz de abrilhantar o panteão da dramaturgia carioca, marcada pela imoral ousadia de Nelson Rodrigues.

No decorrer da história, é possível imaginar alguns caminhos, como o segredo de alguns filhos. Ainda assim, não é colocado no lugar principal do espetáculo, coisa que a dramaturgia não precisaria se amparar para chocar sua plateia, mas antes, usa como impulso para alcançar uma plataforma outra.

Dentro da coerência de cada personagem, é possível apreendê-los em suas formas humanas, o que contém limitações. O que o pai fala sobre o país não é o delírio de um velho recém acidentado. O que o filho mais novo diz sobre a política nacional não se trata de ingenuidade. É a maturidade desse jogo que honra uma plateia madura.

Em São Paulo, a situação do filho jornalista-viajante e seus segredos costuma virar espetáculos de hora e meia todos os semestres. Sua revolta com o pai dá um nó quando sugere que o patriarca queira enquadrar o filho em nichos sociais. E ao fim, quando outro segredo surge, os nervos paulistas devem implorar por condenação. Aqui, entre nós, o movimento de revolta pede para castigar um homem tão vil, que mesmo acamado, merecia todas as punições na Comissão da Verdade. O alívio está em que não estamos diante de um tribunal.

Um prêmio ao espetáculo A Tropa por nos ajudar a descansar de figuras chapadas, historicamente tolas e de encenações formalmente reacionárias que enlatam teses em peças e vendem a preços populares.

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