A solidão pública de ‘O Homem Elefante’

A solidão pública de ‘O Homem Elefante’

Leandro Nunes

28 de setembro de 2016 | 10h20

Joseph Merrick nasceu para ser plateia de seu próprio espetáculo. Seu corpo diferente abriu portas e janelas para a especulação sombria. O Homem Elefante viu, no reflexo dos olhos de quem o assistia, o horror de não ser o outro.

A empreitada da companhia aberta buscou abordar a relação do diferente na sociedade a partir da obra de Bernard Pomerance, que foi adaptada para o cinema por David Lynch e que também levou David Bowie aos palcos no papel do protagonista.

ARQUIVO 25/09/2016 CADERNO2 / CADERNO2 / C2 - Cenas de 'O Homem Elefante', direção de Wagner Antonio Crédito: Rodrigo Castro

A salvação está no corpo

A parceria da grupo carioca com Cibele Forjaz e Wagner Antonio sugeriu o mergulho por linguagens muito particulares. Ambos diretores, de gerações diferentes, mantém em suas pesquisas um ostensivo campo da visualidade. Isso não quer dizer que haja um abandono da atividade de ato em seus trabalhos, como pode ser percebido no recente Galileu Galileu, da diretora, e em A Macieira, trabalho da companhia 28 Patas Furiosas, encenado por Antonio. Nas duas montagens, se reconhece o processo de criação que perpassa a compreensão do jogo de distanciamento na peça de Cibele e o mergulho visual de A Macieira.

O convite da companhia para a dupla parecia coerente com o que se desejava investigar. Entretanto, o elenco desejou demais. No início, a quebra entre a espetacularização feita pelo dono do show e o abrupto desmantelamento da ilusão feita pelo médico, vivido por Davi de Carvalho, surge como aposta irresistível. O que vem a seguir é a narração da condição de Merrick, em um texto permeado de subjetividades, o que exigiria acuidade entre o que é dito e o que é silêncio.

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Máscaras manchadas

A montagem alcança suspense na revelação do corpo do Homem Elefante. Sua máscara de saco e a projeção de fotos reais cria uma dialética que favorece a imaginação. A corporeidade de Vandré Silveira é o que há para assistir. Sua condição física é deslocada como um casulo humano, forçado à metamorfose por uma sociedade moralista e hipócrita.

É certo que a transformação não virá pelo corpo, mas o que a obra oferece como fonte de conflito do personagem está mais nas vozes dos outros. Merrick parece ser jogado ao vento física, mas também subjetivamente. Sua resistência não alcança a poesia do palco.

As diversas personagens de Regina França vêm manchadas da interpretação anterior. De posse do figurino da atriz ou da religiosa, todas possuem a mesma vibração e ritmo de falar. Daniel Carvalho Faria igualmente esquece alguns gestos do empresário nas passagens de máscaras ou dos convidados da festa.

Por fim, da metade para o final, a manipulação de cortinas, tecidos e objetos é feito de modo desesperado, sem intimidade. O que se apresentava como um jogo de distanciamento parece confundir o próprio elenco. A dúvida é se as regras não foram complicadas demais para o grupo.