A sede de comunhão em ‘As Ondas ou Uma Autópsia’

A sede de comunhão em ‘As Ondas ou Uma Autópsia’

Leandro Nunes

10 de maio de 2016 | 10h30

Leandro Nunes

Que o teatro possa ser abalado pelos encontros, os de dentro e os de fora. Pode ter sido esse a vontade de Gabriel Miziara ao convocar oito provocadores – figuras singulares que enxertaram partes de si e de suas experiências com a obra de Virginia Wolf na montagem que o ator concebeu como As Ondas Ou Uma Autópsia.

Mais que pensar em ondas como forças brutais e selvagens da natureza que desaguam no litoral, ou não, esse movimento da água do mar já incute um destino posterior ao seu acontecimento: deslocar e preparar a onda conseguinte. Tal como uma tsunami, a força dessa onda se faz, primeiro, no grande recuo anterior, que massifica o volume e o ergue até derrubar suas toneladas na praia e arrastar tudo consigo.

É desse recuo que se faz as descrições de Jinny, Rhoda, Susan, Louis, Bernard e Neville. Os amigos que não conversam entre si, as descrições pormenorizadas não sobre as ações efetivadas mas sobre o que não se fez, o que não se disse, o que não se pensou. A mais completa indiferença como uma garoa sem compromisso. Um respingo no tecido escuro que passa despercebido.

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O que? Já passou!

Adjunto vem a assepsia da relação alérgica, o rosto corado, enfastiado do olho no olho, o sexo delicado escondido diante do avesso áspero da alma. A onda que se prepara precisa se recolher da convivência do litoral. O corpo soturno do homem que coloca um vestido. Cria outrem para olhar-se como objeto de estudo, apeia-se de si para conseguir manipular sua transformação. O mergulho tende a ser profundo porque o ator consegue manejar a infraestrutura da interpretação.

A onda está montada e ela mira na pequena fazendinha. As cercas, primeiro, e depois seus moradores. Uma mulher que enxerga amores como vibrações, fluxos passageiros, pinceladas grossas de tinta que rasgam a tela de cores. Uma mulher que gira livre no próprio eixo e depois pula em qualquer órbita. É incômodo porque há o desespero de que recordar de sua unidade desperte os pesadelos do mundo. Não os seus, porque ela dorme em paz. Ela habita na distância entre a medula e a junta do horror.

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Do vapor à onda

Na plateia, o sabor do texto salta para os olhos. A cabine de água cria véus dimensionais. As camadas de uma Virginia liberta. Mas talvez tenha sido esse o pecado de Virginia, ter despertado os pesadelos do mundo. Como uma Pandora indiferente, que percebe o mundo tão quadrado quanto uma caixa. Então a onda vem. Corpo, luz, água e som se fundem, sem, no entanto, se compactarem. O corpo baila nessa caixa quântica. Dança porque não cabe nela. E é por não caber que sobrepuja, inventa o teatro. E a plateia bebe no riso, na respiração quase sincronizada e no silêncio cúmplice. Não são todos os dias que a sede esbarra na fartura.