A prece dissonante de ‘Canto para Homens e Rinocerontes’

A prece dissonante de ‘Canto para Homens e Rinocerontes’

Leandro Nunes

28 Julho 2016 | 17h41

Por Leandro Nunes

Durante muito tempo, Eugène Ionesco ficou frustrado com o teatro. O que era feito não impressionava o dramaturgo deslocava, nem o provocava. Ou, ao menos, não para aquilo que ele esperava. A solução foi fazer seu próprio teatro, na contramão de um excessivo realismo da época que buscava a criação de imagens ‘verdadeiras’.

Para nós, que vemos de longe, a ideia que ele desenvolveu do seu Teatro do Absurdo não era conceito formalizado para Ionesco. Era um embrião, um ideal. Tratava-se de uma busca muito honesta para encontrar um fazer teatral que o alimentasse artisticamente, que fosse um modo vida. O mundo fabular de Ionesco, a denúncia do autor se revelava no escândalo da natureza humana.

Jogos em ruído

Na empreitada, o Teatro do Osso surge na cena paulistana fruto de atores recém formados pela Escola de Arte Dramática (EAD). Canto Para Homens e Rinocerontes inspira um novo fôlego e vigor no palco, além de, mostrar um olhar mais detido na obra do dramaturgo.

Com direção de Rogério Tarifa, a montagem traz as veias abertas para a cena, no contato direto com a plateia, favorecido pelo palco em forma arena. É com disposição que o elenco sustenta esse jogo proposto o espetáculo tem três horas de duração.

Logo no início, a encenação ganha novas camadas com a inserção de réplicas de bancos e da plateia, em miniaturas, representada por pedaços de madeiras e bonequinhos. É quase uma metateatralidade do público, uma insinuação virtual da plateia no palco.

Ainda nessa dimensão, a força criativa dos pequenos prédios da cidade dá suporte para toda a peça. No intercâmbio, o texto articula a ação, concretizada na construção de uma cidade. A configuração dos paralelepípedos no palco, por sua vez, devolve ritmo para o corpo e fala dos atores. O fluxo tem cadência. O pano de fundo organizacional da narrativa funde ambientes micro e macro no mesmo espaço, ambos na iminência do caos.

No caso dos banquinhos com a mini plateia organizada às bordas do tablado, não ocorre o  mesmo. A transposição dos planos, saindo do palco e indo para a mesa, não parece se articular com o jogo proposto anteriormente. Se a plateia real inspirou a representação de uma versão menor (real -> palco), o que aconteceria com um movimento originário na arena?

Canto_Para_Rinocerontes_e_Homens

Uma arena, um campo de batalha

Pela lógica, se aparece um rinoceronte na mesa, logo deveria aparecer sua versão na arena (real

No elenco está a maior força de Cantos Para Homens e Rinocerontes. Ao atravessarem por diversas linguagens, os atores demonstram o vigor da narrativa de Ionesco, em seus desdobramentos. Dentro do universo da transformação e invasão dos bichos, há uma mar de temas a metrópole, o trabalho, a violência e a exploração que os atores vão buscar como se pega água num poço para matar a sede.

Mais próximo do final, um intervalo é convocado e solicita-se a plateia que deixe seus lugares e a sala de espetáculos. Qual a razão? O que farão? Em um teatro tradicional bastaria fechar as cortinas. Qual a solução em uma arena? Nesse caso, pedir que a plateia aguardasse do lado de fora. Vamos lá!

(Aqui, tomo a liberdade de estar no intervalo para registrar uma impressão mais pessoal: Na saída, tentei puxar na memória episódios parecidos. Quando precisei deixar o teatro para que os atores se aprontassem para o segundo ato? O que justifica a saída do público nessa hora, já que, durante o primeiro ato os atores até trocaram de roupas ao lado da plateia. Imaginei que devesse ser algo que provocasse surpresa. Um rinoceronte, talvez? Besteira. Enquanto aguardava no saguão do Itaú Cultural, o corpo esfriou. Algumas pessoas pararam para fumar, riram, foram ao banheiro, se distraíram. Eu não conseguia me recordar de um episódio parecido. Precisava ser algo surpreendente que a preparação requeresse a ausência do público por alguns instantes. Pronto, vamos para o segundo ato.)

O palco decorado em terra revelava o brasão do espetáculo. Os bonequinhos voltaram no front contra o bando dos pequenos rinocerontes. Reservado para performances individuais, suspeita-se que esse ato tenha surgido como modo de avaliação individual dos alunos, e que foi mantido na encenação profissional.

Dali para o final, o espetáculo se reveste de um ritmo diferente do primeiro ato, em citações mais vagas sobre a brutalidade dos rinocerontes/humanos. De maneira mais livre, os atores se apoiam em relatos pessoais que dialoguem com a escancarada brutalidade na metrópole, como a homofobia, racismo e a exploração do trabalho, degraus que animalizam a sociedade.

O primeiro e segundo solos são obstinados porque precisam retomar o clima rompido pelo intervalo. Do terceiro em diante, o tempo começa a jogar contra e tudo parece excesso, pois novas narrativas foram introduzidas, e é preciso reaquecer os motores, no palco e na plateia num movimento introdutório.

Ainda que se remetam a brutalidade do animal homem, o que é trazido desvia-se de reforçar o que foi apresentado. Trata-se de uma leitura mais oblíqua e performativa do texto de Ionesco. Uma abordagem potente, mas de qualquer forma, é uma outra peça.

As apostas temáticas são tão limites que dão espaço para um apelo ecológico, contra a extinção dos rinocerontes (os de verdade). Nessa cena, a caracterização da atriz ao lado foto do animal com o chifre cortado e sangrando mergulha o que foi conquistado em um certo didatismo visual. Imagens muito semelhantes e simultâneas que se redundam.

Ao fim, com o desmantelamento do palco em terra, a direção tomou a fala, como em microfone aberto, e atribuiu os conflitos do mundo, e a consequente animalização do homem tratada na montagem, à crueldade do capitalismo. A fala atravessada na montagem, encontrou certo estranhamento ao ser pronunciada nas dependências de uma instituição financeira. Teatro do Absurdo? Pode ser, mas não ficou claro que se tratava de uma cena ensaiada ou, de fato, de um microfone aberto.

Na procissão que encerra, o grupo retoma com delicadeza um pedido comum. O canto que despede a plateia enumera grandes pensadores brasileiros da educação e das artes, que estiveram e continuam na linha de frente contra a animalização: rinoceronte eu não quero ser.