A monomania temporal de ‘Jacqueline’

A monomania temporal de ‘Jacqueline’

Leandro Nunes

06 Janeiro 2017 | 15h00

Não parece nada fácil adentrar a história de grandes, precoces e breves trajetórias artísticas. O caminho permeado por sensibilidades tende a atiçar e conclamar um séquito em torno da memória de jovens artistas que nos deixaram. O louvor, por sua vez, pode atenuar o tempo do esquecimento e realçar o que nos falta atualmente.

Por vezes, grandes artistas têm uma suave ideia do tempo, uma intuição de por quanto tempo estarão vivos e ativos. Esse sensação de urgência apressa suas criações em demarcar a história, ou ao menos sacudir o então presente.

Jacqueline é uma peça-concerto que dialoga diretamente com a música erudita, em tema e forma. A montagem é pautada pela gravação do Concerto Para Violoncelo e Orquestra em Mi Menor Opus 85, de Edward Elgar. Texto e Direção: Rafael Gomes Elenco: Natália Lage, Arieta Corrêa, Daniel Costa e Fabricio Licursi Cenário: André Cortez Iluminação: Wagner Antonio Figurino: Fause Haten Direção de Movimento: Renata Melo Projeto Gráfico: Laura Del Rey Assistência de Direção: Marco Barreto Produção: Morente Forte

Foto: Yuri Tavares/Divulgação

A consciência da esclerose múltipla pode ser um dos aceleradores do talento da violoncelista Jacqueline Du Pré. Ou não. A intensidade que a acompanha desde a infância até o sucesso internacional marcam o espetáculo escrito e dirigido por Rafael Gomes, em cartaz no Sesc Consolação.

Distante de querer montar uma peça-biografia da musicista, o diretor emprega um jogo que impõe o tempo em fluxo, transformando os importantes episódios da vida de Jacqueline em motores dramáticos para sua encenação. Associada pela perfeição e paixão com que executava o Concerto para Violoncelo do compositor Edward Elgar, Jacqueline também mantinha uma intensa e inspiradora amizade com a irmã, a flautista Hilary.

Com o tempo, a violoncelista ganha fama internacional enquanto a irmã vai morar no campo com os filhos e o marido Kiffer Finzi. Como se não bastasse ser excelente na música clássica, Jackie vai engolir a calma rotina da irmã ao desejar seu marido.

O que se segue na encenação tende a furtar as urgências da história para uma certa obsessão pela palavra, que incorre em uma viagem sem volta por um mundo metalinguístico. Nos trechos em que há definições sobre climas e fenômenos naturais, os verbetes aparentam ter sido retirados de um dicionário.

Jacqueline é uma peça-concerto que dialoga diretamente com a música erudita, em tema e forma. A montagem é pautada pela gravação do Concerto Para Violoncelo e Orquestra em Mi Menor Opus 85, de Edward Elgar. Texto e Direção: Rafael Gomes Elenco: Natália Lage, Arieta Corrêa, Daniel Costa e Fabricio Licursi Cenário: André Cortez Iluminação: Wagner Antonio Figurino: Fause Haten Direção de Movimento: Renata Melo Projeto Gráfico: Laura Del Rey Assistência de Direção: Marco Barreto Produção: Morente Forte

Foto: Yuri Tavares/Divulgação

As explicações sobre esclerose múltipla parecem cansar até mesmo a atriz Natália Lage, obtendo um resultado contrário. Não que não exista poética nesse tipo de abordagem, mas a casca formal característica dessa função linguística é dura demais para ser utilizada em larga escala.

Por outro lado, o cenário de André Cortez e a iluminação de Wagner Antonio junto a direção de movimento de Renata Melo parecem perceber isso e tendem a puxar a encenação para a ação teatral. O tablado montável e desmontável ancora os atores nesse momento mais caro ao teatro. A articulação das partes cria molduras que capturam o ambiente múltiplo concretizando-o em um ato contínuo.

A grandiosidade da cena em que o Daniel Costa rege o concerto expande, com luz, o palco em muitos quilômetros, uma imagem que se fixa na memória. As ações de Arieta Corrêa e Fabricio Licursi também ganham movimentos interessantes de se olhar. Em Jacqueline tudo o que pode ser visto é vivo e pulsante. Uma ironia do tamanho do talento da violoncelista.

 

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