A máscara sob a razão e a voz que esculpe o corpo de ‘Blanche’

A máscara sob a razão e a voz que esculpe o corpo de ‘Blanche’

Leandro Nunes

23 de março de 2016 | 18h28

As palavras ditas são motivo de guerra. A escravidão que podem proporcionar se instaura no exato instante em que são pronunciadas. Faz parte da natureza desse arranjo e rearranjo de códigos atrelar-se como rédeas o emissor. Com a outra ponta da algema livre, fica a chance de entrelaçamento com o futuro interlocutor.

A incursão de Antunes Filho por Um Bonde Chamado Desejo cumpre a intenção de ultrapassar grandes obras por outras trilhas não casuais e provocá-las por outras direções. Dessa vez foi com o texto de de Tennessee Williams, antes, pela primeira vez com Nova Velha História, em 1991.

Conhecida como fonemol, a idioma imaginário do Centro de Pesquisa Teatral passa a vigorar como língua oficial na montagem. Com a suspensão da língua portuguesa, seus efeitos são logo percebidos na superfície da cena. As palavras aparentemente desconexas retribuem paralisando o entendimento pelo viés da nossa língua comum.

A máscara performática de Marcos de Andrade

Graças à complexidade que possui um idioma, suas origens e subjetividades, o fonemol destranca diversas (co)narrativas que se antecipam não para preencher lacunas, mas para recombiná-las, ressaltadas nas especificidades no tom de voz, no ritmo da fala e na expressão corporal dos atores. Aqui, o intérprete comprova seu lugar primordial no teatro e é no trio composto por Marcos de Andrade (Blanche), Andressa Cabral (Stella) e Felipe Hofstatter (Stanley) que todas essas sutilezas da linguagem espraiam com fluidez.

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Assim, os diálogos ininteligíveis que surgem cobrem como máscara o rosto da razão, da fala normativa, para esculpir ideias com delicadeza nos corpos dos atores. Andrade e Andressa calçam com naturalidade essa voz singular e efetivam um corpomídia inflamado de discursos gestuais. Ele num patamar distinto, ao encarnar uma personagem feminina, acrescenta sobre si uma nova máscara performativa, no qual media a delicadeza da irmã de Stella e contenção dramática.

Na plateia, essa gestualidade ativa sinais visuais que indicam, como placas, outras trilhas de compreensão. Não se faz necessário conhecer detalhes da obra de Williams, pelo contrário, vale a experiência, ainda que a produção ofereça uma ligeira sinopse das cenas que estão por vir. A corporeidade, enfim, se cola à função de subtexto ou mesmo legenda de um filme. Corpos-letra.

Blanche - 03 - credito Evelson de Freitas

Felipe Hofstatter e Andressa Cabral: o corpo que fala

Talvez menos dramática, em comparação com a obra original, ‘Blanche’ se apresenta dissecada, com direito às emoções deslocadas, risos e reações que aparecem como efeito colateral dado o procedimento. Ainda assim, o não interesse em adaptar, concretiza-se em um bem-sucedido exercício de construção e emissão de sentido. O próprio Antunes, coloca o espectador na função de DJ, que pode mixar e remixar livremente a narrativa a seu gosto. Se esse engajamento resultar em diversas músicas diferentes, é certo de ninguém sairá indiferente.

 

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