‘A Macieira’ frutifica cenário artesanal em corpos assimétricos

Leandro Nunes

25 de maio de 2016 | 10h30

Leandro Nunes

Uma das diferenças entre utopia e fantasia pode ser pensada a partir de como cada uma se acopla no universo “real”. A primeira parece vir congênita à existência. Os seres envolvidos não tem acesso total aos dados vitais dessa superestrutura e coexistem com ela de maneira pragmática. Nela, o espectador/leitor está descolado da narrativa e percebe suas camadas com a exasperação que falta às personagens. Um exemplo é a condução de 1984, de George Orwell. No caso da fantasia,  o grande e sem limites mundo da magia   a consciência da personagem principal, muitas vezes, se junta à do leitor para que a surpresa guie as descobertas e o mergulho por aquele universo.

Essa percepção pode ajudar a compreender os caminhos de uma narrativa que surge invadida por um evento real: a guerra. No caso de A Macieira, a alegoria fantástica presente em O Homem É Um Grande Faisão no Mundo, da romena Herta Müller, ocupa a realidade de uma pequena vila. A montagem das 28 Patas Furiosas apresenta o relato de moradores que sofrem com o deslocamento da vila. Esta se desprendeu do chão e desliza em direção ao mar. O que é importante observar, a seguir, são as escolhas do encenador e iluminador Wagner Antonio e da dramaturgia de Tadeu Renato.

A utilização do espaço, no vão da Sala Adoniram Barbosa do Centro Cultural São Paulo, criou uma sensação de perspectiva raramente vista na recente produção de teatro de grupo. A opção por colocar a plateia em uma das extremidades expande o campo visual em profundidade, e é capaz de abrigar, em certos momentos, três cenas simultâneas, com um elenco dividido entre o primeiro plano, segundo e terceiro. Afora esse tipo de encenação, o que existe por aí compreende o aglomerado de grandes teatros destinados a produções de musicais e espetáculos internacionais. Nesses teatros, o efeito visual se faz, menos pela arquitetura e dimensões dos palcos italianos, do que pela utilização de recursos tecnológicos ou pela ilusão criada por grandes cortinas com cenários sobrepostos.

830e671d-c473-49dd-801f-bb0ee0752edb

Artesania de grupo

O que há em A Macieira é produto da artesania de grupo. O cenário traz consigo a vulnerabilidade à metamorfose, provocada pela ação vigorosa do elenco, destaque para a construção visual da fogueira, formada por tábuas e lâmpadas, e para o quadrado vermelho, fruto assimétrico de uma árvore ávida por consumir os próprios frutos. Há o toco de madeira antropomórfico que surge para enxugar o imagético abundante e atrelar o objeto à narrativa. E outro toco, em chama luminosa, que ancora o passado e permite digressões tanto visuais, quanta narrativas. Na observação do conjunto, há um grande apelo simétrico em toda a encenação. Os elementos visuais, sonoros e cenográficos compartilham cores uniformes e ocupam posições equilibradas e equidistantes. São elementos perceptíveis da elaboração de uma dramaturgia cênica.

Dentro desse sistema, a regra encontra ruídos com o elemento chamado elenco. Divididos em núcleos narrativos, a formação do quinteto tende para o equilíbrio visual. Entretanto, mais que madeiras, tecidos e luzes, é preciso investigar a anatomia dos corpos no palco, e perceber com mais atenção qual a função desse invólucro e a projeção simbólica, estética, social e política que deles emergem. Na cena realista, que integra os cinco atores, Murilo Thaveira interpreta um sujeito que possui informações que podem explicar o que está acontecendo. Ele sofre mais que os outros com o deslocamento da vila. O que ele tem para revelar, portanto, encerra a expectativa da narrativa. O ator possui um biotipo diferente em relação aos quatro companheiros de cena, o que levanta questões de encenação.

b0cf24f3-a85b-42e5-b0e0-398534bd6e96

Profeta

No bojo equilibrado da peça é Thaveira que marca o centro do quadrado marcado pelos outros atores. Na imagem criada com o pano vermelho, é ele quem preenche a centralidade da imagem criada pelos companheiros. A abertura do chão, central no palco, também é acionada por ele. O jogo cênico funciona com os quatro atores acessando, um a um, o personagem profeta. Para que fique mais transparente, basta testar as suposições: O que aconteceria à cena, caso o ator fosse deslocado para as extremidades, e cedesse seu papel a uma das atrizes, por exemplo? Se trata, puramente, de seguir o ritmo estético do cenário ou foi pelo desempenho de interpretação, ou ainda designação do diretor em acordo com o coletivo? E se o elenco fosse formado por quatro mulheres e um homem? Quem ocuparia o papel do personagem profeta? Caso fosse o homem, que tipo de leituras seriam evocadas pelo público? E se fossem quatro mulheres negras e uma branca? São muitas leituras possíveis, que partem da experiência particular do espectador e de como este vê a montagem. Uma vez que o corpo contemporâneo traz consigo a discussão do invólucro que se torna social e político, cabe a encenação expandir seu sistema de organização estética para abarcar as potências desprendidas a fim de resguardar associações e leituras difusas à proposta da montagem, uma vez que o espetáculo passa longe de tal tema.