A estação magnética de ‘Teorema 21’

A estação magnética de ‘Teorema 21’

Leandro Nunes

05 de fevereiro de 2016 | 10h00

É na viração do dia que a violência se avizinha.

O ponto de partida do espetáculo Teorema 21, encenado nas belas ruínas da antiga Escola de Meninas da Vila Maria Zélia, denota a passagem do tempo inscrita em suas paredes. Ela também é percebida nos rescaldos de memória dos moradores que retornam ao lar. O local, invadido por plantas e árvores, é íntimo do Grupo XIX de Teatro, sediado na Vila desde 2004.

Como o elenco e direção explicaram na matéria do repórter Igor Giannasi para o Caderno 2, a transgressora fábula que critica o capitalismo precisaria ser igualmente transgredida para então se reverter em um acontecimento cênico, algo que irrompesse a mera adaptação teatral. O panorama surge do esgotamento do consumismo e da mercantilização e a necessidade de renomear outro elemento que possa impulsione-se para longe de uma crise estrutural. Sem piedade, Pasolini escolhe colocar para moer a família, unidade básica de produção.

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Se no filme, o ethos dessa família rica é implodido pela presença de um hóspede misterioso, no espetáculo a equação é a mesma. O invasor que desperta a sensualidade e sexualidade dos integrantes daquela família, acaba transformando o cotidiano de todos. Na peça, esse despertar se dá por modos violentos, nas vias intensas de Saló ou Os 120 Dias de Sodoma (1975).

A dramaturgia expedida por Alexandre Dal Farra cria oportunidades de embates indiretos com a palavra falada. Em outros termos, o que não é dito ganha relevo sobre o discurso leniente da família ante a violência. O silêncio é o que mais importa na montagem. Por outro lado, essa concretização se faz na direção de Luiz Fernando Marques com seu elenco. No texto, a intenção do discurso vaza, bem como a luz do sol filtrada nas folhas das árvores da construção. Vaza porque não cabe mais como condutor de pensamento. Vaza porque não há ideologia que justifique a nossa natureza.

Esse vazamento é conduzido pela presença de Rodolfo Amorim que interpreta o homem invasor. A representação da violência física na cena, que inclui estupro e assassinato, é realizada bem próxima da plateia, à medida do real e à grandeza do teatral. A entrada do homem no sistema vira a chave da energia e muda uma atmosfera que antes parecia apenas acumular vazios. Com a inserção desse novo elemento, o homem passa a funcionar como um filtro que capta o vazio e catalisa em embrutecimento da razão. O xamã desses tempos, que evoca no próprio corpo a razão esvaziada e concretiza uma brutalidade crível, redimida e redentora.

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Um dos diagnósticos que o teórico francês Jean-Pierre Ryngaert faz sobre a dramaturgia contemporânea identifica nos textos a manifestação de ausências e vazios de informação, ou seja, aquele momento em que parece faltar alguma peça que complete o “quebra-cabeças”. Esse jogo corrobora para apontar um outro caminho em direção à compreensão da história. É por essa estrada que Teorema 21 trilha. Um campo minado de imãs – silêncios consentidos e indiferença – que atraem sentido e excitam o imaginário.

TEOREMA 21

Sede do Grupo XIX de Teatro. Rua Mário Costa, 13 (entre as ruas Cachoeira e dos Prazeres), Vila Maria Zélia. 6ª a dom., 18h. 18 anos. Informações e reservas: 2081-4647 (3ª a 6ª, 14h/18h). Grátis. Até 5/3.

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