A caverna cibernética de ‘O Teste de Turing’

A caverna cibernética de ‘O Teste de Turing’

Leandro Nunes

12 de agosto de 2016 | 19h51

***Alerta de spoiler***

“Hitler estava certo e eu odeio judeus.” Em março desse ano, a Microsoft lançou no Twitter a sua nova inteligência artificial, chamada Tay. Os usuários poderiam interagir com o perfil de uma garota de 19 anos via @TayAndYou.

O que começou de um jeito divertido acabou em menos de 24 horas, com a suspensão da conta, após a garota-programa fazer declarações como a acima, tal qual uma típica hater da internet. O sistema de Tay foi desenvolvido para que ela aprendesse a conversar na interação com os outros usuários mas a turma acabou corrompendo a doce inocência da garota, “ensinando-a” a fazer declarações racistas, machistas e xenófobas.

“O poeta é um fingidor.” E a máquina também

Na ocasião, a Microsoft (que exclui os tweets polêmicos) explicou o aprendizado com os usuários do Twitter a tornou bastante ácida e intolerante.

Temas como esse, podem tem destino certo para ser enxertados em filmes, HQs e livros. Agora, é valioso quando o palco recebe provocações de assuntos oriundos do mundo da tecnologia e da ordem das exatas. Aliás, parece que quando falamos “mundo”, já estamos delimitando o aqui e o lá.

Pois bem, o espetáculo O Teste de Turing vem para borrar essas fronteiras chatas na cena contemporânea e dissimular a compreensão de que a organização do conhecimento é um amontoado de caixas onde cada coisa tem um lugar específico.

Até existe uma caixa na peça de Paulo Santoro mas ela serve menos como demarcação e mais como combustível para a imaginação. O texto incansável do dramaturgo constrói o experimento que visa aferir a capacidade de uma máquina de simular o comportamento humano. Na frase há muitas palavras a se questionar, como a oposição de “máquina” e “humano”, bem como “simular” e “comportamento”.

Pois é nesse choque que está o jogo da peça. Dado os avanços da tecnologia, o próprio sentido das palavras tende a colapsar. Isso não quer dizer que a criação de sistemas autônomos, ou mesmo de uma geladeira, anule a definição das coisas. Entretanto é função da inovação criar rachaduras no modo obsoleto de viver. Foi assim como os sistemas analógico e o digital.

Algumas dessas ideias são sondadas na conversa da máquina com Gabriela, e também com os três cientistas, interpretados por Jorge Emil, Rodrigo Fregnan, Felipe Ramos. Santoro concretiza um pensamento que tergiversa com elegância o Teste de Turing que se realizará.

As indagações trazidas pelos céticos cientistas que tentarão ceifar o sucesso do teste só abre mais clareiras, realimentando a discussão. Trata-se de uma dramaturgia capaz de embriagar seus personagens, desvelando suas motivações, desejos e ignorâncias. O deleite secreto é ver no palco as máscaras do órgão mais potente do corpo humano caindo. Ou simplesmente, os cérebros das personagens fritando.

Na encenação de Eric Lenate, a conjunção dos atores cria um anteparo para que as ideias apenas flutuem, sejam percebidas e fruídas, sem sobrevoar longe demais em elucubrações que poderiam se apontar estéreis pelo estilo do texto.

A prioridade foi por esclarecer os pontos de tensão da trama e conduzir o público aos desdobramentos. No primeiro momento da peça, o uso da projeção e das conversas por webcam evoca certa holografia do humano, uma ausência de sangue quente no palco, com o trio derramando tratados conceituais a respeito de linguística e matemática, em contraste com a certeza insípida de Gabriela.

“Você não tem uma mão!”

No ponto de virada, com a identificação de Manoela como o sistema autônomo do teste, as reações dos homens são diversas. Entretanto, a opção de revelar o lado patético e previsível dos humanos encontra alguns problemas na interpretação. O jogo cênico concede informações, supõe e sugere. A virada prevê, como no próprio método científico, uma revisão, uma realocação das novas informações recebidas com as já adquiridas.

Na montagem, essa transição se enfraquece quando tenta “robotizar” os cientistas, no instante em que um deles se movimenta em círculos. O robô de Maria Manoela já está em cena, e esta não precisa mais se comportar como um humano.

Lembrando que os cientistas estavam ausentes do palco, seria interessante conceber uma formação que reafirmasse suas presenças físicas e que pudesse justificar, saciar, a falta que eles fizeram. É como numa partida, os corpos, atrás das câmeras, entraram no palco sem se aquecer. As reações destemperadas dos cientistas permaneceram na garganta.

E a bela cena com a voz do pai parece ter tocado e impressionado mais a plateia, pelo modo como foi idealizada. O cenário asséptico da peça parece que confundiu os ânimos do elenco masculino.

No caso da atriz, por mais casual que são as tramas tecnológicas no cinema, a representação de um sistema autônomo no palco é daquelas coisas que abre novos procedimentos formais contemporâneos de criação de personagens. Atores podem ser cientistas, animais, deus e até coisas inanimadas, mas não é todo dia que se interpreta uma inteligência artificial no teatro.

Quando se pensa no conhecimento como ponte para compreensão da existência do mundo, do outro, a razão e os sentimentos são diferentes impulsos. O Teste de Turing é como uma versão cibernética da Caverna de Platão.

Um mito vivo se move do lado de fora, enquanto tentamos entender suas sombras, que se misturam às nossas. Talvez isso possa justificar o ódio aprendido de Tay. E o nosso horror – equivocado – ao vê-lo refletido como se fosse a primeira vez.

 

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