A antiqueda das palavras em ‘Poema Suspenso…’

A antiqueda das palavras em ‘Poema Suspenso…’

Leandro Nunes

24 de fevereiro de 2017 | 17h34

A invocação de fábulas urbanas pode nos aproximar com êxito de uma reflexão coletiva sem que se precise atualizar tarifas, multas ou a velocidade das marginais.

A cidade cria suas próprias narrativas, refunda o sentido da convivência, desemboca a ira cotidiana como uma chuva de granizo de fim da tarde e só depois devolve o antigo sol de verão.

Por esse cenário ser tão coletivo e inusitado, os finais mais dramáticos poderiam ser ilustrados nos eventos frequentes de uma metrópole: atropelamentos, assaltos, alagamento de ruas ou um corpo que cai de um prédio mas que não desaba no chão. Nada isso torna a cidade especial demais, exceto pelo garimpo poético dessas inutilezas.

A suspensão temporária de um sujeito caído é o que ativa uma viagem tridimensional no cenário de Poema Suspenso para Uma Cidade em Queda, montagem da Cia Mungunzá que fez temporada na Caixa Cultural, nas últimas semanas.

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Mariana Beda – Divulgação

O espetáculo criado em 2015 pega impulso no sucesso de Luis Antonio-Gabriela (2013) e do seu formato de documentário cênico, empossando os atores com relatos pessoais, embora de autoria não assinada, e dessa vez com argumento criado e organizado pela própria companhia.

Com histórico da potência cênica do elenco, a direção convidada de Luis Antonio Marques, do Grupo XIX, trata de encaminhar visualmente os relatos recolhidos que sustentam a fábula do homem suspenso.

Ao considerar o espetáculo é preciso evidenciar o recorte criado pelo conjunto de quase 10 metros e seu movimento. Todo espetáculo está nele, na aparente dureza dos metais e dos balanços que desafiam o chão. Nem cinco minutos ou dez, ou quarenta ou todo o espetáculo bastam para que os pontos de vista se concretizem. As combinações são inúmeras. A versatilidade do conjunto, ao moldar-se em si mesmo, cria até mesmo a ilusão de que o chão também pode girar em qualquer direção.

Nesse sentido, o técnico performer Pedro Augusto é o catalisador da encenação. No organismo, ele é o responsável pela instauração fabular do evento, no início da peça, e pelas detonações seguintes das ações, intervindo e recriando sob o desafio de se equilibrar nas estruturas, disparos estéticos que ultrapassam o acionamento de botões, luzes ou sons, mas de garantir a qualidade da presença em cena

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Mariana Beda – Divulgação

O vigor de Augusto não cabe nos escaninhos ocupados pelos atores, a estrutura é dele, como um vírus cênico que muta a condição dinâmica do espetáculo, muito embora tenha se fortalecido pela própria flacidez do texto. Aqui, as palavras são o primeiro elemento que sobra, não resistindo a coreografia da estrutura.

Pelas janelas, portas e cortinas, o texto escorre desimportante. E, mais uma vez, isso se avalia pelo próprio funcionamento da estrutura. Os prédios giram e ão param, amputando a fala dos atores. Assim não é permitido confundir o texto com dramaturgia, em benefício da dramaturgia cênica outrora concebida.

Colocando a pesquisa desenvolvida com Luis Antonio-Gabriela em perspectiva, a continuidade da extração de poesia dos relatos pessoais, encontra encalhe no anonimato fabular de Poema Suspenso... Talvez por mudar a chave tão drasticamente  do foco na história da travesti à uma panorâmica social provocada por um homem sem rosto ou nome que fica suspenso após uma queda testemunhada por semelhantes anônimos.

Por outro lado, talvez a questão nem seja essa. A fábula também sofre com intervenções objetivas para que, talvez, se torne teoria de um acontecimento. É estranho já que o estilo do texto seja tão efêmero, ou talvez porque ele não se impõe ampliando camadas. Essa ausência de eco, faz com que se sobreponha às oportunidades da plateia de criar suas ligações. Na trilha coletiva pelas urgências é mais comum que os atalhos surgidos sejam singulares.

Em geral, quando se usa esse tipo de narrativa, pode haver um caráter educativo/reflexivo a partir de um universo realista-fantástico e que também introduz uma exigência de atualidade. O domínio do universo concretizado não necessita de força ou amarras na experiência oferecida. A medida é que o coletivo é relativizado pelo singular, pela adição de riquezas particular e por vezes, intransponíveis. Nunca cabe tudo e com mais um, tudo se transforma.

Com a queda interrompida, o improvável já se fez no palco. Se, portanto, a história respira no tempo presente, ao público cabe ser permitido a contaminação com seu gás carbônico, e no trabalho de conceber conexões singulares. A lógica estrutural é fantástica mas vence o humano. O foco na queda do homem roubou nosso fôlego. Permitam-nos.