‘100% São Paulo’ dá um zoom máximo na metrópole brasileira

‘100% São Paulo’ dá um zoom máximo na metrópole brasileira

Leandro Nunes

10 de março de 2016 | 10h00

O jogo proposto pelo inventivo Rimini Protokoll se lança para longe da exatidão das famigeradas estatísticas e exibe porcentagens do que é viver. Diante de relatos vivos, não há o que concordar com as pesquisas realizadas por institutos que têm o intuito menos tabular e mais influenciar a opinião pública. O trabalho da companhia alemã em 100% São Paulo enxerga na singularidade da vida e na mal iluminada rotina o elemento que engrossa e dá fôlego ao projeto que já passou dezenas de cidades.

No palco 100 moradores de São Paulo revelam, em diversos jogos de perguntas, aos poucos, suas histórias, segredos e opiniões. Trata-se de um espetáculo com elementos de happening amistoso e despretensioso que, por meio de procedimentos, demarca fronteiras bem explícitas a respeito da vida em sociedade, seus valores, mazelas e virtudes.

Os pontos tocados são tão básicos quanto essenciais. Educação, segurança, religião, economia e política. No palco, as respostas dadas provocam identificação e recusa na plateia. O jogo cria o melhor exercício brechtiano de consciência, abrindo e fechando janelas de compreensão do micro e macro sistemas de funcionamento de uma metrópole. Por que as estatísticas precisam ser tão cretinas???

100 hipóteses para SP. FOTO: STEFAN KAEGI

O jogo cênico, trata-se, portanto, de um ensaio social e político. Aquelas 100 pessoas representam a cidade? Não e sim. Cadê as travestis, e os cadeirantes ou pessoas com deficiência? Uma possível conclusão é que em uma cidade tão grande qual a porcentagem de travestis e transsexuais? Será que chegam a 1%? Isso também diz muito sobre a posição dessas pessoas e como são tratadas na sociedade. Por outro lado, aquelas 100 pessoas podem mentir? Sim e não. Tudo isso é levado em conta? Não e sim. O fator possibilidade é girado como em uma roleta, construído e desconstruído, logo em seguida. Questões como aborto e violência entram para retratar o drama do que é viver na cidade. O gosto pelo futebol e a origem diversa e o hábito dos participantes colore de diversidade o dia a dia paulistano.

Também é certo que a surpresas logo aparecem. Questões polêmicas como o uso de drogas não legalizadas, pena de morte e ditadura demonstram certa presença conservadora, ao menos na quantidade. Mas não se conhece, de fato, quem está lá. Há também os momentos alegres mais de 90% dos participantes colocarem a educação como prioridade do País. Nesses momentos, o aplauso é abundante, tanto quanto a crueza e expontaneidade das reações na plateia. Se, no início da peça as reações barulhentas do público eram reprimidas pelo mesmo público demonstrando a heterogeneidade da plateia logo todos estavam imersos na experiência.

Ainda existe aquele um 1% que merece destaque. Em um dado momento, o jogo faz uma cena aberta, na qual os participantes podem falar livremente e do que quiserem. Fala vai, fala vem, nada muito surpreendente, até que: “Os diretores alemães desse espetáculo são preconceituosos e nos tratam por estereótipos”, disse um jovem. Nesse instante, Rimini não poderia esperar (ou sim), mas os brasileiros conseguiram sabotar o próprio procedimento do espetáculo. Ainda sem fôlego, a plateia também testemunhou um: “Quem acha que existe corrupção no Theatro Municipal?” Não foi possível mensurar, de qualquer forma, muitas e muitas mãos, dentro do próprio Theatro Municipal, levantaram as mãos. 100% São Paulo evidenciou nas cidades o que há de mais urgente nela: a cidadania.

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