Um conto natalino triste e bobo (mas mais bobo do que triste)
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Um conto natalino triste e bobo (mas mais bobo do que triste)

Alexandre Ferraz Bazzan

24 Dezembro 2014 | 20h26

No dia 26 de abril de 2013 novos documentos revelavam coisas inéditas sobre J.D. Salinger. Não sei por que alguém quer saber da vida de um maluco que não sai de casa, mas, se alguém quiser, pode me perguntar.

Fui assistir outro doidão em um desses galpões que viraram baladinha ali na Augusta. Achei que Daniel Johnston não fosse cantar Life in Vain, mas tocou logo ali no meio do set. De olhos marejados eu ia virando aqueles 600ml de cerveja em um copo que mais parecia um balde. Rock n Roll, Speeding Motorcycle, Don’t Let The Sun Go Down On Your Grievances.  A banda que acompanhou, montada aqui no Brasil, mandou super bem, só que achei que ele fosse chorar quando disseram que não sabiam tocar uma música dos Beatles que eu não entendi qual era.

Daniel_Johnston_at_Emos_2 cut

Já no final, ele disse “vou encerrar” e a plateia, em uníssono, respondeu “nooooooooo”. “I’m so sorry”, e nesse caso você tinha a sensação de que ele realmente sentia muito, um esforço físico e mental para estar ali, a coragem de simplesmente pegar um avião para ir pra “que país é esse mesmo? Brasil”. Para minha sorte, pois eu não estaria em São Paulo, ele tinha cancelado o show anteriormente porque não quis embarcar quando chegou no aeroporto.

Ele desejou a todos os presentes uma realização de natal, achar o amor verdadeiro, e finalizou com True Love Will Find You in the End. Para quem não acredita em Deus, esperar que a previsão de um senhor esquizofrênico se realize parece loucura. Não precisa acreditar em Deus, mas acreditar no diabo já é besteira.

Esse é o segundo Natal que se passa sem que a premonição de Daniel se concretize, mas eu só queria achar a boneca Elsa, de Frozen, para a minha sobrinha. Nada feito. Um zilhão de modelos, tamanhos e cores(na verdade a maioria era rosa), e nada de Elsa.

Ir a um shopping no dia 24 de dezembro é pura tortura. As lojas revezam a trilha sonora entre Jingle Bells, John Lennon e Simone. Em uma delas, Roberto Carlos cantava Se Ela Dança, Eu Danço, quase falei pro DJ trocar o dvd, ou, nesse caso, VJ. Todo ano eu tento enfiar um livro goela abaixo na minha sobrinha, mas também dou algo divertido para não ser o tio chato do livro. Cruzei duas vezes com Kiko Zambianchi que eu sempre achei que chamasse Kikos Ambianchi. Não confundam.

Pensei em perguntar para ele se ele estava preparando algo novo, ou se estava rico por causa de Primeiros Erros. Fiquei com vergonha porque só conheço justamente Primeiros Erros e aquela versão “linda” de Hey Jude. Para falar a verdade, tenho o mesmo interesse no Kiko que eu tenho na vida privada do Salinger.

Voltando ao Daniel Johnston. O público insistiu bastante e ele voltou ao palco. Cantou sozinho, a capella, Devil Town com o coro dos fãs.

Depois do show um cara conversava com o senhor que limpava o banheiro: “você conseguiu ver alguma coisa? Que cara foda, pra mim ele é o quinto beatle, ele e o elliott smith”. Pensei que um dos dois deveria ser o sexto beatle, mas o tio da limpeza tinha o mesmo entusiasmo na conversa que eu tenho no Kiko e no Salinger. Preferi deixar quieto. Sabe como é, sou de humanas e não sou muito bom de conta.

Não fiquem assim, amanhã será um novo dia.

Feliz Natal

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