Um ano ruim com música boa: os discos preferidos do blog em 2016
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Um ano ruim com música boa: os discos preferidos do blog em 2016

Metallica, Radiohead, Beyoncé, O Terno e BaianaSystem estão entre os escolhidos

Alexandre Ferraz Bazzan

27 Dezembro 2016 | 13h01

2016 deu duros golpes ao mundo da música. David Bowie abriu o ano com um dos melhores discos e morreu em seguida, depois veio Prince, Leonard Cohen e agora George Michael. Muitos outros se foram, mas também foi um ano de grandes álbuns. Em 2015, pela primeira vez, misturei artistas nacionais e internacionais por achar que música não tem nacionalidade. Este ano decidi trocar o “melhores” por “preferidos” porque essas escolhas são muito subjetivas e pessoais. A numeração também é mero método e forma de facilitar o xingamento dos leitores, mas não quer dizer que o número 1 seja melhor que o 45.

Coloquei alguns clipes ao fim do post. Divirta-se:

45 – Catavento – CHA

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Algumas das melhores coisas do rock nacional nos últimos tempos surgem da psicodelia e de guitarras barulhentas. O segundo disco da Catavento é tudo isso, aliás, no Facebook, a banda de Caxias do Sul descreve seu estilo como “Sujeirinha”. Sujeira da boa.
44 – Kendrick Lamar – Untitled Unmastered

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Em 2015, Kendrick Lamar lançou um dos melhores discos do ano, mas algumas coisas ficaram de fora. Untitled Unmastered compila estas sobras, que juntas viram um dos melhores discos de 2016.
43 – Ruspô – Dourados

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Dourados é o segundo disco do Ruspô. O jornalista Ruy Sposati é o responsável pelo trabalho, que iniciou gravando sozinho enquanto fazia cobertura de questões indígenas no Mato Grosso do Sul. Dourados traz a deliciosa Edileuza, que já tinha sido gravada pela banda Os Amantes Invisíveis, e agora ganha a versão do próprio compositor. Dourados State of Mind também é um aceno divertido à parceria de Jay-Z e Alicia Keys, mas a música fala sobre uma realidade difícil e não das maravilhas de um lugar como em New York State of Mind.
42 – Lucy Dacus – No Burden

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Lucy Dacus abre o disco dizendo “eu não quero mais ser engraçada”, mas o álbum é cheio de trocadilhos e ideias engraçadinhas acompanhadas de guitarra e uma voz poderosa.

 

41 – Big Thief – Masterpiece

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Assim como o Big Star, a Big Thief batizou o disco de estreia de forma arrogantemente irônica. Assim como o Big Star, as músicas trazem histórias e boas melodias. A capa de Masterpiece também é bem legal, mesmo que ninguém mais se importe com essas coisas hoje em dia.
40 – Jim James – Eternally Even

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Jim James se afasta um pouco da My Morning Jacket, mas o som não cai muito longe da banda. É um bom disco para colocar ao fundo de uma festa entre amigos.
39 – The Baggios – Brutown

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Disco de rock sem frescura e com participações mais do que especiais de caras como Jorge Du Peixe e Fernando Catatau.

38 – Nine Inch Nails – Not the Actual Events

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“É um disco não amigável e impenetrável que nós precisávamos fazer”, disse Trent Reznor sobre o novo EP, que ele explica o formato simplesmente pelo fato da duração que eles precisavam para o momento. Reznor já havia trabalhado com o inglês Atticus Ross, mas este é o primeiro trabalho em que ele se torna oficialmente integrante do Nine Inch Nails. O disco ainda teve a participação de Dave Grohl e Dave Navarro.
37 – Carne Doce – Princesa

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Goiânia parece ser um oásis no cenário do rock nacional. Princesa mostra a evolução da Carne Doce, mas principalmente da Salma Jô como vocalista.
36 – Terno Rei – Essa Noite Bateu Com um Sonho

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O segundo disco da banda segue a pegada dream pop brasileiro de Vigília, o álbum de estreia.
35 – Wilco – Schmilco

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Wilco se escora na incapacidade de Jeff Tweedy de fazer músicas ruins. Sem novidades.
34 – Dinosaur Jr. – Give a Glimpse of What Yer Not

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Give a Glimpse of What Yer Not é mais do mesmo, e isso é bom. O barulho, distorção e solos de J. Mascis estão ali como sempre. Love is… é cantada pelo baixista Lou Barlow e mostra o quanto ele é subaproveitado no Dinosaur Jr.
33 – Lê Almeida – Todas as Brisas

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Quem entra no “Escritório”, o lugar onde a Transfusão Noise Records toca os “negócios” e dá umas festinhas no centro do Rio de Janeiro, pode se surpreender com a quantidade de discos e cartazes do Lê Almeida, mas não existe nada em excesso. Ele fez um disco bem legal o ano passado e esse ano fez dois: Mantra Happening e Todas as Brisas.
32 – Autoramas – O Futuro dos Autoramas

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A combinação das vozes de Gabriel Thomaz e Érika Martins se casam muito bem e além do bom trabalho autoral, os covers Garotos e Be My Baby não desgrudam do ouvido.
31 – Connor Oberst – Ruminations

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Ruminations não se afasta em nada daquilo que Oberst já fez na sua carreira solo. Mesmo assim, é um bom disco de folk.
30 – Angel Olsen – My Woman

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Ela foi backing vocal do Bonnie ‘Prince’ Billy e segue a tradição do folk-rock sulista dos EUA. Este é o quarto disco da cantora e um dos melhores do ano.
29 – Oh Boland – Spilt Milk

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Uma banda punk de bar, mas mergulhada no power pop e no rock clássico. Os irlandeses têm uma carreira promissora. Mesmo com a gravação independente, eles conseguem produzir músicas que vão te fazer dançar sozinho pela sala de casa.
28 – Metallica – Hardwire to Selfdestruct

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O disco novo deve agradar a legião de fãs que se manteve fiel mesmo quando o Metallica derrapou algumas vezes na carreira. É um retorno às origens. Spit Out The Bone traz uma letra pós-apocalíptica, o trashzão cru e o baterista Lars Ulrich em boa forma.
27 – Sheer Mag – III 7”

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A Sheer Mag é uma das bandas mais legais da atualidade. É uma pena que eles ainda tenham poucas músicas. O carisma e a voz da Tina Halladay somados à guitarra que mistura punk com rock clássico são irresistíveis.
26 – Peter Doherty – Hamburg Demonstrations

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Os Libertines passaram por aqui recentemente para um show sofrível, ainda assim divertido. A cada novo trabalho de Doherty fora da banda, a convicção de que ele é o principal talento no grupo se torna maior. O segundo e pouco alardeado disco solo, Hamburg Demonstrations, é prova disso.
25 – O Terno – Melhor do que Parece

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O power trio de canção rock n’ roll pop experimental começou a carreira bem perto do rock sessentista e a cada novo disco se afasta e ganha mais identidade. É algo como o que os Beatles fizeram, iniciando como uma banda influenciada pelo blues e rock americano até mudar o mercado da música.
24 – PJ Harvey – The Hope Six Demolition Project

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O novo disco tem um pouco da grandiosidade de Let England Shake, mas de modo geral é mais rock e simples que o antecessor.
23 – Frank Ocean – Blonde

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O guitarrista que tocou em Blonde disse que Ocean gravou 15 horas de música para compor o disco. Isso mostra a criatividade e a capacidade de edição do cantor. A música Seigfried faz homenagem e mostra a influência de Elliott Smith, ele até recebe créditos na composição pela linha de A Fond Farewell usada na canção. As vinhetas de Blond também são ótimas, em especial a da mãe de Ocean pedindo para ele não beber ou usar drogas.
22 – Baiana System – Duas Cidades

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Duas Cidades é sobre Salvador, mas poderia ser sobre as desigualdades de qualquer cidade e deve ser acentuadamente, cada vez mais, sobre São Paulo a partir de janeiro. O som inspirado é nos sound systems jamaicanos, mas mistura rock e música brasileira.
21 – Adia Victoria – Beyond the Bloodhounds

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O rótulo de “singer/songwriter” geralmente é ligado a cantores folk que rodam o mundo com seu violão. Adia Victoria vai além disso. A cantora de Nashville lembra de questões raciais e sua música vem sendo chamada de “blues gótico” ou “country gótico”. É o tipo de artista surpreendente já em seu primeiro disco.
20 – Bob Mould – Patch the Sky

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Mould passou por momentos difíceis antes de gravar Patch the Sky (costurar o céu) e foi isso a inspiração para o título. Em uma entrevista, ele explica que quando algo acaba, ou alguém morre, é como se essa pessoa fora atirada pelo tecido que forma o céu. Isso deixaria um buraco e você pode tentar ir atrás disso, ou costurar o vazio (cicatrizar) e seguir em frente. As músicas, como sempre, são o rock pesado que Mould ajudou a construir nos EUA e que pavimentou o caminho para o estouro de bandas como Nirvana e Soundgarden.
19 – Metá Metá – MM3

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As influências da música africana e a voz de Juçara Marçal permanecem no som na banda, mas a gravação em apenas três dias dá a dica da proximidade ao rock.”A ideia era deixar a banda afiada e resolver tudo rápido, ao vivo, com dois ou três takes”, explica Kiko Denucci em entrevista à revista Rolling Stone.
18 – Joyce Manor – Cody

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A crítica tem dito que Cody mostra o amadurecimento da Joyce Manor. Músicas mais longas e melodiosas, coisa e tal. A verdade é que o principal single do disco fala de um encontro com uma menina mais nova que acha Kanye West mais legal que John Steinbeck. Tudo bem, bom humor sempre esteve ligado ao pop-punk.
17 – Beach Slang – A Loud Bash of Teenage Feelings

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Esse talvez seja o trabalho menos inspirado do James Alex(vocal e guitarra). O Beach Slang quase acabou por duas vezes neste ano, mas, em seu pior momento, segue fazendo pequenos hinos, letras que as pessoas insistentemente tatuam, como se tivessem que levar a mensagem junto com elas até o fim.
16 – Pixies – Head Carrier

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Head Carrier parece muito mais com o rock anos 1990 que o Pixies influenciou do que com as coisas originais da banda, ainda assim, são músicas que vão entrar para o catálogo. Paz Lenchantin finalmente se tornou parte da banda e não a substituta de Kim Deal.
15- L.A. Salami – Dancing with Bad Gramar

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“Quantas estradas um homem precisa caminhar antes que ele deixe de se importar?”. As referências a Bob Dylan mais claras estão na letra de Aristotle Ponders The Sound e a capa de Dancing with Bad Gramar, mas não param por aí. Lookman Adekunle Salami bebe na fonte do último vencedor do Nobel de Literatura e Tom Waits, entretanto, esse não é seu único trunfo. As músicas inteligentes estão acompanhadas de uma boa voz.
14 – Drive-by Truckers – American Band

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Rock sulista americano. O Drive-By Truckers não fechou os olhos para o momento que vive os EUA e o mundo. Um dos melhores discos do ano.
13 – The I Don’t Cares – Wild Stab

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Juliana Hatfield começou a mexer nos arquivos de Paul Westerberg e os dois juntos formaram uma banda. Além de muito material inédito, eles revisitaram coisas da carreira solo de Westerberg, como a balada Born For Me, que virou um rock romântico irresistível. Westerberg é uma mistura de Keith Richards e Bob Dylan dos anos 1980, sem dúvida é um dos grandes compositores vivos. É sempre bom quando algo dele é lançado, mesmo que sobras guardadas no porão.
12 – David Bowie – Black Star

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Este é o disco de jazz que David Bowie queria fazer. Era um álbum bom que ficou assustadoramente interessante depois que ele morreu. O trabalho foi recebido positivamente, mas foi depois do clipe de Lazarus que todos ficaram de cabelo em pé. A diferença entre Black Star e You Want It Darker é que Leonard Cohen tinha 82 e falava abertamente sobre a morte, enquanto o trabalho de Bowie só ficou claro depois que ele morreu.
11 – Against Me! – Shape Shift With Me

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O Against Me! se afasta um pouco mais do punk e folk do começo da carreira e faz um disco simples de rock, com uma pitada de glam. É a continuação da transformação de Laura Janes Grace, uma trans mulher, mas também é um disco sobre amor. Não poderia ser mais universal.
10 – Nick Cave & The Bad Seeds – Skeleton Tree

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Nick Cave e seu parceiro Warren Ellis se especializaram em compor músicas para trilhas sonoras. Talvez por isso os dois últimos discos façam mais sentido quando acompanhados dos respectivos documentários: Push the Sky Away com 20.000 Dias na Terra, de 2014, e Skeleton Tree com One More Time With Feeling agora. É um disco muito triste feito pouco tempo depois de Cave ter perdido seu filho.

9 – Solange – A Seat at the Table

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Até o ano passado, Solange seria apenas a irmã da Beyoncé. Neste ano, ela fez um dos melhores discos do ano, em muitas listas o melhor do ano. O álbum tem boas músicas com o melhor do R&B e do hip-hop.
8 – Whitney – Light Upon the Lake

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Whitney surgiu com o fim do Smith Westerns, que também era uma bandinha legal. Max Kakacek (guitarra) e Julien Ehrlich (bateria) começaram a compor com o alterego Whitney e esse acabou virando o nome da banda. O som é próximo alt-rock/country-rock consagrado nos EUA, só que mais pop.
7 – Nada Surf – You Know Who You Are

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You Know Who You Are é um disco cheio de melancolia, mas otimista ao mesmo tempo. É como um amigo que te diz “você não tem que correr pelo parque…mas seria legal sair e ver outras pessoas”. É impossível não esboçar um sorriso depois de ouvir a música Out of the Dark.
6 – Charles Bradley – Changes

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Charles Bradley está para o amor assim como James Brown está para o sexo. Em 2016, ele teve que se afastar dos palcos para tratar um câncer de estômago, mas antes ele deixou mais uma de suas pérolas. O cover de Black Sabbath, que dá nome ao disco, é bonito, mas o álbum reserva coisas ainda melhores.
5 – Rolling Stones – Blue & Lonesome

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Os Stones gravaram clássicos do blues em três dias. Guitarras pesadas e a gaita feroz de Jagger marcam o disco feito praticamente ao vivo, sem frescuras. É exatamente o que eles propunham quando Brian Jones ainda era o líder do grupo, mas Jagger e Richards decidiram se tornar a maior banda de rock do mundo. Nesta volta às origens eles ainda têm a ajuda de Eric Clapton em duas músicas.
4 – Leonard Cohen – You Want It Darker

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Leonard Cohen se especializou em escrever melodias tristes com letras profundas, e, por mais que ele avisasse em entrevistas e na letra da faixa título de seu último disco, “Estou pronto, meu Deus”, não há nada que possa preparar para o fim. A morte de Leonard Cohen foi um dos golpes mais duros de 2016.
3 – Car Seat Headrest – Teens of Denial

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Teens of Denial é o disco de rock mais emocionante em muito tempo. Will Toledo deu o nome de Car Seat Headrest(encosto de cabeça do carro, em tradução livre) para seu projeto solo, que hoje é uma banda, porque ele gravava suas canções em casa e muitas vezes usava o interior do carro para ter mais privacidade. 12 discos saíram dessa forma. Leonard Cohen, em toda sua carreira, gravou 14 álbuns. Que essa fonte não seque tão cedo.
2 – Beyoncé – Lemonade

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A apresentação de Formation no Superbowl, a final do futebol americano, causou mais comoção em parte das autoridades americanas do que os recorrentes assassinatos de negros pela polícia. Lemonade inteiro veio acompanhado de vídeos para as músicas no Tidal. A tática deixou muitos fãs sem ouvir o disco, mas deve ter aumentado significativamente o número de assinantes do serviço de streaming. O último trabalho de Beyoncé ainda tem outros dois hinos: Daddy Lessons e Freedom, parceria com Kendrick Lamar.
1 – Radiohead – A Moon Shaped Pool

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Gavin Haynes, da revista NME, chamou o Radiohead de Beatles do século 21. É um certo exagero considerando que o trabalho deles começou no século passado e que o século 21 está apenas começando, mas é inegável que esta é uma das bandas mais relevantes em atividade. Quando eles anunciaram A Moon Shaped Pool, muitos críticos anteciparam quais canções poderiam entrar, acertaram algumas como a brilhante True Love Waits. Burn the Witch parece que antecipou a eleição de Trump e certamente explicou a onda xenófoba que assola muitos países. Além do clipe de animação de Burn The Witch, eles ainda gravaram dois clipes com Paul Thomas Anderson. É o tipo de disco difícil de reproduzir ao vivo, mas não há nada que Thom Yorke não possa fazer com sua voz.