‘Tire minha foto da parede’: a difícil arte de envelhecer
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‘Tire minha foto da parede’: a difícil arte de envelhecer

Um pouco da história de Jeff Tweedy

Alexandre Ferraz Bazzan

14 Julho 2015 | 12h40

Depois de uma última tentativa de reconciliação mal sucedida, ele perdeu a cabeça: “se não é para ficar comigo, apague minhas fotos do teu perfil”. A coisa mais estúpida e justificável que ele poderia fazer. É como arrancar o band-aid de uma vez, nada de ir sumindo aos poucos, sendo substituído por novos amigos, amantes, namorados. Nada de desaparecer gradualmente. Neil Young estava certo: “It’s better to burn out, than to fade away.”

Essa lógica, usada por Kurt Cobain e Ian Curtis, pode não fazer muito bem para a saúde. O próprio Neil Young preferiu não queimar de uma só vez, mas são poucos os artistas que combinam o fim abrupto ao envelhecer com graça.

Em 1994, antes de Cobain tomar um atalho, Jay Farrar decidiu encerrar prematuramente o Uncle Tupelo. A banda praticamente inaugurou o que se conhece hoje como alt-country e tinha uma dupla criativa aos moldes de Lennon/McCartney: imensa harmonia, muita competitividade e diferenças irreconciliáveis a partir do momento em que McCartney resolve tomar as rédeas da situação. O McCartney da história se chama Jeff Tweedy.

Vamos pegar o caminho mais longo e chegar lá eventualmente.

Jay Farrar formou o Son Volt e se tornou um dos heróis alternativos dos EUA,  sem nunca atingir um grande público, entretanto. Tweedy juntou os cacos do Uncle Tupelo e formou a banda mais respeitada do gênero, ultrapassando até o underground. O Wilco é considerado o Radiohead dos EUA no sentido em que é um grupo em constante evolução, se arrisca em experimentações e faz um som adulto e relevante.

Capa do disco Sukierae

Capa do disco Sukierae

Mas envelhecer não é somente se tornar um adulto e pagar as contas. De vez em quando, algo mais difícil aparece. Quando Susan Miller, a esposa de Jeff, foi diagnosticada com câncer, o músico teve que se afastar temporariamente do Wilco. Da proximidade com a família surgiu o disco Sukierae, apelido de Susan. Como o álbum foi gravado com o filho Spencer, ficou fácil dar um nome para a “nova banda”: Tweedy.

Ninguém morre.

Susan se recuperou do câncer, mas a doença requer constante vigília. Tweedy já voltou a fazer shows com o Wilco e continua amadurecendo. Em uma entrevista para o Los Angeles Times, Jeff diz que “o rock n’ roll está geralmente associado com a linguagem da juventude, mas eu não me importo.” É fácil perceber isso quando você assiste Mick Jagger rebolando como um garoto aos 71 anos. Nessas horas eu me pergunto: o que é mais difícil? Envelhecer ou se manter jovem? É engraçado que Tweedy seja melhor em envelhecer que Jagger, mesmo com 24 anos a menos. Por outro lado, Jagger é o especialista em se manter jovem.

As duas tarefas são complicadíssimas, mas quem se importa?

Boa semana.